Buscar sexo como válvula de escape emocional tem relação com “silêncio” masculino, diz psicóloga 

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Por João Roberto Delattre

Enquanto mulheres costumam buscar o diálogo e redes de apoio diante das crises e dificuldades nos relacionamentos, homens recorrem ao sexo como válvula de escape emocional para lidar com tristeza, ou necessidade de intimidade e afeto. Essa é a avaliação da psicóloga Luíza Miranda, pesquisadora do tema da sexologia humana.

Segundo ela observa, existe uma dificuldade cultural, significativa, para os homens expressarem vulnerabilidade emocional de forma direta. Assim eles acabam utilizando mais a pornografia como substitutos para o choro e para o processamento de frustrações.

“Homem não chora, ejacula”, diz

A especialista explica que a vulnerabilidade masculina segue limitada pelo medo de parecer fraco ou de ter gestos mal interpretados. Segundo Luíza, muitos homens evitam expressar afeto como abraçar ou dizer que sentem saudade de um amigo, simplesmente por receio de que isso seja lido como sinal de homossexualidade.

Quando as mulheres demonstram domínio sobre sua própria sexualidade ou trabalham na área, os “homens tendem a se sentir intimidados”, acham-se em uma competição contra brinquedos sexuais ou “temem não dar conta” da performance esperada.

Luíza destaca uma diferença marcante na abordagem do ato sexual entre mulheres e homens, enquanto homens focam na performance e no controle, mulheres preferem conversar sobre o que gostam na relação. Esse encontro de segurança é fundamental para que elas se sintam confortáveis em transbordar e se conectar.

“Levar a comunicação do sexo pra hora do sexo não indico porque isso vai abrir a nossa cabeça e vai tirar a gente da conexão”, comenta.

A sugestão da sexóloga é a criação de uma “antessala” para comunicar desejos e limites. Pedir licença e criar espaço antes de despejar emoções e desejos no outro.

O ideal é que essa conversa ocorra antes ou depois do ato sexual para não “racionalizar” a experiência e quebrar a conexão.

Infográfico gerado por IA, revisado por João Delattre

“Vulnerabilidade é o ato de se colocar exposto, como uma tartaruga sem casco”, define Luiza. Aliás, promover a exposição é uma das ferramentas mais poderosas para gerar conexão real entre as pessoas, além de nos tornar profundamente humanos.

A dificuldade contemporânea de sustentar a intimidade vem justamente do medo de ser visto e aceito em nossa essência, o que leva a relações rasas e baseadas em personas. “Talvez o grande desafio contemporâneo não seja aprender novas formas de amar, e sim reaprender a sustentar a experiência humana de sentir”, comenta.

Segundo alerta, o prazer deve ser desmistificado e o tesão deve ser entendido como uma energia vital que impacta todas as áreas da vida, inclusive a produtividade. A “ansiedade de performance” é alimentada por padrões irreais da pornografia, retira a espontaneidade e a diversão do momento. “A gente só transborda no sexo aquilo que a gente quer na vida”, diz

Atração pelo intelecto

Luíza Miranda aponta que cresce o questionamento da monogamia tradicional e ganham espaço modelos como a neomonogamia e as relações abertas.

Ela alerta para o “capitalismo afetivo”, em que pessoas viram instrumentos de autopromoção. Para ela, a inteligência emocional é o que sustenta vínculos maduros nessas novas formas de amar.

A maturidade e profundidade são o que realmente despertam interesse. Na demissexualidade, explica Luíza Miranda, o desejo sexual não surge de forma espontânea ou puramente física, mas depende, obrigatoriamente, da construção de conexões mais profundas e intelectuais.

a dinâmica demissexual é como um jogo de conquista, onde cada uma precisa alimentar o interesse no outro além da mera existência física. Segundo ela o contexto atual é desafiador, especialmente porque muitas pessoas tendem a fugir de conexões profundas, preferindo interações casuais e superficiais

Luíza Miranda usa o termo sapiosexualidade para destacar que, para ela, o desejo nasce da inteligência, sobretudo a emocional.

Maturidade, profundidade e boa comunicação são o que sustentam a atração, enquanto grosseria e impulsividade a anulam.

“A mente, mais que o físico, é o motor do interesse”.

A psicóloga Luíza Miranda abordou o tema ‘O que estamos fazendo com nossas vulnerabilidades’ no evento científico Conecta, no Centro Universitário de Brasília. A roda de conversa atraiu estudantes de diversas áreas do conhecimento.

A estudante de Direito Lana Bentes Wolf, de 20 anos, afirma que tem dificuldades em ter relacionamentos, justamente por questões abordadas no encontro. Ela tem falado sobre esse tema com a sua terapeuta porque não se permite ser vulnerável e está em uma tentativa de melhorar nesse sentido.

“Foi muito completo. É real que vulnerabilidade gera conexão e conexão gera tesão”, confirma a estudante.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira



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