Democratas admitem reduzir distritos de maioria negra para enfrentar republicanos

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O tema parece técnico, mas tem potencial para redefinir a política americana nos próximos anos

Foto por SCOTT OLSON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFPKen Martin, líder do Partido Democrata
Ken Martin, líder do Partido Democrata

Uma nova pesquisa divulgada revelou uma mudança delicada – e explosiva – dentro do Partido Democrata americano. Pela primeira vez de forma mais clara, uma parcela relevante de democratas admite apoiar mudanças nos mapas eleitorais dos Estados Unidos mesmo que isso reduza o número de distritos de maioria negra, caso a estratégia ajude o partido a derrotar os republicanos no Congresso.

O tema parece técnico, mas tem potencial para redefinir a política americana nos próximos anos. A discussão envolve o chamado “gerrymandering”, prática de redesenhar distritos eleitorais para favorecer partidos políticos. Nos Estados Unidos, quem controla o governo estadual geralmente controla também o desenho desses mapas e isso pode determinar quem vence eleições para a Câmara dos Representantes por quase uma década.

O que mostrou a pesquisa

A pesquisa da Politico, feita em parceria com a empresa Public First, identificou que uma pluralidade de eleitores democratas apoia responder ao avanço republicano no redistritamento eleitoral mesmo que isso reduza distritos tradicionalmente desenhados para garantir representação política negra.

O levantamento foi realizado em meio à intensificação da disputa nacional pelos mapas eleitorais para as eleições de 2026 e 2028.

Embora a Politico não tenha divulgado todos os cruzamentos completos do levantamento no resumo inicial publicado, o dado central chamou atenção porque rompe com uma posição histórica do Partido Democrata: a defesa quase automática dos chamados distritos de maioria-minoria.

A pesquisa surge num momento em que o partido vê sua vantagem entre eleitores negros diminuir gradualmente. Dados da Gallup mostram que a vantagem democrata entre eleitores negros caiu cerca de 19 pontos desde 2020. Hoje, 66% dos eleitores negros se identificam ou tendem aos democratas, enquanto 19% se alinham aos republicanos — a menor vantagem democrata já registrada pela Gallup nesse grupo desde o fim dos anos 1990.

Outras pesquisas recentes também mostram sinais de desgaste. Um levantamento citado pelo portal Axios aponta preocupação crescente entre democratas com homens negros mais jovens, onde o apoio republicano vem aumentando lentamente nos últimos ciclos eleitorais.

Por que os democratas querem mudar isso? A resposta é matemática eleitoral.

Atualmente, muitos distritos de maioria negra elegem democratas com margens gigantescas — às vezes acima de 70% dos votos. O problema para estrategistas do partido é que esses votos acabam extremamente concentrados em poucos lugares. Enquanto isso, distritos vizinhos acabam ficando mais competitivos — ou até favoráveis aos republicanos.

Por isso, parte dos democratas passou a defender uma estratégia diferente: espalhar eleitores democratas, incluindo eleitores negros, por um número maior de distritos.

Na prática, isso poderia reduzir a quantidade de distritos explicitamente majoritários negros, mas aumentar o número total de cadeiras democratas na Câmara.

Tamanho da disputa

O debate ganhou força porque o controle do Congresso está extremamente apertado. Hoje, os republicanos controlam a Câmara dos Representantes por margem mínima: 217 cadeiras contra 212 dos democratas.

Isso significa que poucas mudanças nos mapas eleitorais podem alterar completamente o equilíbrio de poder em Washington. E os republicanos vêm avançando agressivamente nesse terreno.

Nos últimos meses, estados como Texas, Tennessee, Alabama e Louisiana aprovaram ou discutiram novos mapas eleitorais favorecendo republicanos. Em vários casos, grupos de direitos civis acusam os governos estaduais de enfraquecer o peso do voto negro.

O cenário mudou ainda mais após decisões recentes da Suprema Corte. Nos últimos anos, a Corte reduziu parte do alcance das proteções históricas da Lei dos Direitos de Voto, dificultando contestações contra novos mapas eleitorais.

Na prática, muitos estados passaram a ter mais liberdade para redesenhar distritos sem supervisão federal tão rígida quanto existia décadas atrás. Uma decisão recente envolvendo o Alabama permitiu, por exemplo, que republicanos avançassem com mapas que reduzem distritos de maioria negra no estado.

Divisão no Partido Democrata

O tema está provocando tensão interna. De um lado, estrategistas eleitorais defendem que os democratas precisam parar de “jogar pelas regras antigas” enquanto republicanos redesenham distritos de maneira agressiva.

Na visão desse grupo, o objetivo principal deve ser recuperar a maioria da Câmara e impedir uma consolidação republicana de longo prazo.

Do outro lado, lideranças negras e movimentos de direitos civis enxergam risco enorme nessa estratégia. A crítica é direta: reduzir distritos de maioria negra pode enfraquecer a representação política afro-americana justamente num momento em que direitos civis voltam ao centro da disputa política americana.

Muitos ativistas afirmam que o partido estaria trocando representatividade racial por cálculo eleitoral.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.





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