As apreensões de canetas emagrecedoras na fronteira entre o Brasil e o Paraguai atingiram níveis recordes no início de 2026. O alvo da vez é a retatrutida, uma molécula experimental que promete resultados superiores aos do Wegovy e do Mounjaro, mas que ainda se encontra em fase de testes clínicos e não possui registro sanitário global.
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De acordo com dados obtidos pela BBC News Brasil, as apreensões dessas “supercanetas” no Paraná já somam mais de R$ 11 milhões apenas nos três primeiros meses de 2026, superando todo o volume registrado em 2025.
O que é a retatrutida e por que ela preocupa?
Desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, a retatrutida é considerada a “terceira geração” dos fármacos para obesidade. Enquanto a semaglutida (Wegovy) atua em um receptor hormonal e a tirzepatida (Mounjaro) em dois, a nova molécula é um agonista triplo.
- Promessa: perda de até 28,7% do peso corporal em 15 meses.
- Status atual: Fase 3 de testes clínicos (conclusão prevista para o final de 2026).
- Venda ilegal: no Paraguai, versões não oficiais são vendidas livremente por valores que chegam a ser cinco vezes menores que os praticados legalmente no Brasil para drogas similares.
Em nota à BBC, a Eli Lilly alertou que versões não originais não foram testadas e podem ser fatais, uma vez que a molécula oficial está disponível apenas para participantes de ensaios clínicos controlados.
Riscos à saúde e o perigo do transporte
Especialistas ouvidos pela BBC reforçam que o uso dessas substâncias contrabandeadas é um “tiro no escuro”. Como o transporte é feito de forma clandestina (escondido em motores de carros, pneus ou colado ao corpo), o controle de temperatura é inexistente.
A retatrutida e seus similares exigem refrigeração rigorosa (entre 4 °C e 9 °C). Fora desse ambiente, o medicamento não apenas perde a eficácia, mas pode se tornar um meio de cultura para bactérias, causando infecções graves ao ser injetado.
O cerco da Anvisa e as marcas proibidas
A Anvisa já proibiu expressamente a entrada e comercialização de diversas marcas paraguaias que circulam ilegalmente nas redes sociais brasileiras. Entre as principais vetadas estão: Gluconex, Tirzedral, Lipoless, Lipoland, T.G e Tirzec.
A agência ressalta que esses produtos não possuem avaliação de segurança, qualidade ou eficácia no Brasil.
Implicações criminais
O contrabando dessas canetas deixou de ser um caso isolado de “sacoleiros” para se tornar alvo de organizações criminosas. Segundo a Polícia Federal relatou à BBC, a lucratividade e a facilidade logística tornaram o medicamento a “bola da vez” do crime organizado na fronteira.
Quem for flagrado transportando esses medicamentos sem receita ou em quantidades comerciais pode ser enquadrado em crime hediondo contra a saúde pública, com penas que variam de 10 a 15 anos de reclusão.
