Estava aqui na varanda em Cosme Velho quando uma fonte ligou: “Kátia, você viu a Bella?” Não tinha visto. Fui direto ao videocast do Jornal O Globo, me sentei direito e assisti à entrevista que a jornalista Maria Fortuna fez com Bella Campos. Tem notícia que a gente acompanha com uma sobrancelha levantada. Essa aqui eu acompanhei com os dois pés no chão.
Bella foi clara, sem histeria, sem melodrama. Disse que o maior desafio de todo o projeto Vale Tudo foi ter que conviver com uma misoginia interna que a deixava travada nas gravações, com aquela “sensação de abafamento” que quem está de fora nunca vê. E então veio o relato que parou a internet: um homem, durante uma gravação, levantando o braço e pedindo que ela cheirasse seu sovaco para ver se estava fedendo. Seguido de um comentário tipo “você tem cara de que gosta de cheiro de homem”. Bella disse o que todo mundo que ouviu aquilo pensou: isso não é brincadeira. Não pode ser tratado como algo cômico. Porque não é.



Ela foi ao compliance da Globo. Registrou formalmente. Pediu reuniões para tratar o assunto de frente. A emissora que tanto gosta de se posicionar em pauta de gênero deixou uma das suas atrizes bater na porta do próprio setor criado pra isso e não respondeu. “Querem que a gente tenha medo de uma porta fechada, de um espaço negado, mas a minha porta não tá fechada nem um pouco”, disse ela, com uma tranquilidade que dói mais do que qualquer grito.
A situação só mudou quando tudo vazou publicamente. Bella foi direta: a pessoa passou a se comportar porque ficou com medo de ser exposta. Só aí. E depois que ela se posicionou, chegaram mensagens de outras mulheres que viveram situações parecidas nos bastidores. Ela não está sozinha nessa história, e essa informação pesa muito mais do que qualquer polêmica de set.
O que Bella Campos fez nessa entrevista foi caro. Exigiu sair do lugar seguro do “tá tudo bem” e nomear o que estava passando, com endereço. Quando uma atriz no auge da carreira, vivendo a protagonista do horário nobre, senta numa cadeira e diz que foi preciso tudo vir à tona para que o assédio parasse, o problema não é dela. O problema é a estrutura que só reagiu quando ficou com medo de ser envergonhada.
Confira o vídeo:
