Hipotensão intraoperatória é fator crítico em complicações pós-cirúrgicas

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A cada ano, milhões de brasileiros passam por cirurgias de médio e grande porte no Sistema Único de Saúde (SUS). Embora a maioria dos procedimentos tenha desfechos positivos, existe um risco que permanece pouco discutido fora do ambiente técnico, mas que afeta diretamente a recuperação dos pacientes: a hipotensão intraoperatória – queda prolongada ou repetida da pressão arterial durante a cirurgia.

Trata-se de um verdadeiro vilão silencioso. Muitas vezes, o episódio ocorre sem sinais externos evidentes e pode passar despercebido quando os recursos de monitorização hemodinâmica são limitados. Mas seus impactos são profundos: falência renal, lesões cardíacas, complicações pulmonares, necessidade de UTI prolongada, reoperações e até risco aumentado de morte. Para se ter ideia, diversos estudos mostram que mesmo quedas de pressão relativamente curtas podem comprometer a perfusão dos órgãos e desencadear danos irreversíveis.

Um problema mundial – e ainda mais crítico para países como o Brasil

Esses eventos se concentram de forma desproporcional em pacientes de alto risco, como idosos, portadores de doenças cardiovasculares, renais ou submetidos a cirurgias de grande porte. Na América Latina, o estudo LASOS revelou que 14,6% dos pacientes cirúrgicos apresentam complicações antes da alta, e a mortalidade entre os pacientes que complicam chega a 15,1%, uma das mais altas da região.

Uma das razões para esses números é justamente a dificuldade em detectar, de forma precoce e precisa, oscilações hemodinâmicas durante a cirurgia. O método tradicional – observar pressão arterial intermitente e frequência cardíaca – é insuficiente para captar quedas rápidas, sutis ou episódicas na perfusão dos órgãos. Em outras palavras, quando a pressão cai, muitas vezes o corpo já está sofrendo. No Brasil, onde o SUS realiza grande volume de cirurgias complexas todos os anos, lidar com esse “inimigo invisível” é uma necessidade urgente.

Por que a hipotensão intraoperatória é tão perigosa?

Durante uma cirurgia, o organismo passa por estresse fisiológico intenso. Se a pressão arterial cai abaixo de níveis adequados, o oxigênio deixa de chegar de forma suficiente aos rins, ao coração, ao cérebro e a outros órgãos.

Quando isso ocorre:

  • o rim pode sofrer lesão aguda, aumentando o risco de necessidade de diálise;

  • o coração pode entrar em sofrimento, elevando o risco de infarto perioperatório;

  • o pulmão pode desenvolver edema ou necessidade prolongada de ventilação mecânica;

  • a cicatrização e a resposta inflamatória podem se deteriorar, aumentando o risco de infecção e complicações sistêmicas.

Mais do que um número isolado, a hipotensão reflete frequentemente diferentes fenótipos hemodinâmicos, como hipovolemia, vasodilatação ou depressão miocárdica – que exigem intervenções distintas para restaurar o fluxo e a perfusão. A falta de otimização pode desencadear uma cascata de eventos que prolongam internações, aumentam custos e comprometem vidas.

Monitorização avançada: enxergando o que o olho humano não vê

A grande questão é que a hipotensão intraoperatória só pode ser combatida se for detectada imediatamente. É aí que entra a monitorização hemodinâmica avançada, hoje tema de avaliação pela Conitec para possível incorporação no SUS.

Tecnologias minimamente invasivas, como o sensor FloTrac, permitem medir em tempo real o débito cardíaco e orientar intervenções individualizadas com base em fluxo, ajustando fluidos, vasopressores e inotrópicos de forma precisa. Essas informações, atualizadas a cada poucos segundos, possibilitam que o anestesiologista tome decisões mais precisas sobre quando agir e como ajustar o tratamento.

Com isso, torna-se viável aplicar a chamada Terapia Guiada por Metas (TGM), que não é somente um protocolo de ajuste de índices hemodinâmicos baseados em alvos preestabelecidos. Trata-se de um conjunto de intervenções que mantém a perfusão adequada e reduz riscos associados à instabilidade hemodinâmica, especialmente no que diz respeito à reposição volêmica, prática habitual no contexto de pacientes de alto risco.

A evidência científica é robusta. Uma meta-análise publicada em 2024 demonstrou que a monitorização contínua com FloTrac pode:

  • reduzir em até 38% as complicações pós-operatórias,

  • diminuir em 59% a ocorrência de eventos graves,

  • e ainda reduzir o tempo de internação e a permanência em UTI.

Esses ganhos clínicos se traduzem em melhor gestão de leitos, menor sobrecarga de UTI e maior previsibilidade do pós-operatório, fundamentais para sistemas públicos de alta demanda como o SUS.

Relevância econômica para o SUS

O tema também tem forte impacto econômico. O relatório atualmente analisado pela Conitec classifica a tecnologia como dominante – ou seja, mais eficaz e com potencial de gerar economia estimada em R$ 64 milhões nos próximos cinco anos.

Essas economias vêm principalmente da prevenção de complicações graves em pacientes de alto risco, justamente aqueles que concentram maior consumo de recursos hospitalares. Podemos citar redução de sessões de diálise, menor necessidade de ventilação mecânica e diminuição das readmissões.

Outro ponto importante: muitos hospitais públicos já possuem monitores compatíveis, adquiridos por programas como o RENEM. Falta apenas o acesso aos sensores descartáveis para viabilizar o uso completo das funcionalidades.

Um passo decisivo para a segurança do paciente

A discussão chega em um momento em que o Ministério da Saúde reforça iniciativas como o Programa Nacional de Segurança do Paciente e o Programa Nacional de Redução de Filas. Evitar complicações, garantir cirurgias mais seguras e acelerar altas hospitalares são prioridades estratégicas, e o combate à hipotensão intraoperatória se alinha diretamente a essas metas.

À medida que o parecer preliminar da Conitec se aproxima, cresce a expectativa de que o Brasil possa dar um passo decisivo para modernizar o cuidado perioperatório. Controlar a hipotensão intraoperatória não é apenas uma evolução tecnológica: é uma medida clara de proteção ao paciente e de racionalidade no uso dos recursos públicos.

Enfrentar o “vilão silencioso” das cirurgias de grande porte é, acima de tudo, garantir que cada brasileiro tenha acesso a um cuidado mais seguro, preciso e humano.

Aline Fukuzawa

Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo, com MBA em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing latino-americano.

Diretora de Negócios LATAM da linha de APM (Advanced Patient Monitoring), agora parte da BD.





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