Chocolate, minha cachaça | Jovem Pan

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Unsplash/Tetiana Bykovets chocolate
Depois de vilanizar o açúcar União, parti pro chocolate diet

Aprendi na dor: se tenho chocolate em casa, minha vida vira um inferno. Passo os dias pensando nele, enquanto luto pra não pensar nele. Depois de muito sofrimento, tomei uma difícil decisão: não comprar mais chocolate (tipo parar de comprar cigarro, só filar).

O que não me dei conta é que eu poderia ganhar o chocolate de presente. Para essas situações, tive que desenvolver uma nova técnica: agradeço o mimo e, ao chegar em casa, como ele inteiro. Isso mesmo, devoro o chocolate in-tei-ri-nho. Só sossego depois de amassar a embalagem e arremessar no lixo, que nem bola de basquete. Às vezes, não resisto e começo a aniquilação no carro, mas isso é uma outra história. É claro que, muitas vezes, enjoo na metade, mas sigo firme até o fim. O que é um Vonau perante a serenidade de dormir sabendo que só tem bananada sem açúcar na despensa?

Quando se trata de uma grande quantidade, como num ovo de Páscoa, posso levar alguns dias para acabar com ele. A questão é a falta de tempo físico, afinal, além de comer chocolate, a gente tem que trabalhar, levar o filho à escola, essas coisas agridoces da vida. Enquanto ele existir, toda vez que eu entrar no meu quarto para pegar, por exemplo, meus óculos, vou lembrar que o danado está na gaveta do criado-mudo (ou dentro de uma mala no topo do armário, não importa) e serei atraída por ele como uma criança por uma loja da Ri Happy.

Teve uma época em que eu achei que minha compulsão era pelo açúcar, conhecidamente uma droga. De fato, se eu consumir um docinho depois do almoço, depois de um tempo vou querer mais um. E, se continuar me rendendo aos doces durante o dia, antes de dormir corro o risco de ir atrás de uma lata de leite condensado, com uma colher na mão e cara de psicopata.

Depois de vilanizar o açúcar União, parti pro chocolate diet. As pessoas falam: “Você sabe que está se enganando, né? Ele tem as mesmas calorias que o normal.” Na verdade, o engano era acreditar que meu vício era apenas pelo açúcar que vinha misturado com o cacau. Minha compulsão ainda mais voraz é pelo chocolate. Não importa a quantidade de manteiga de cacau, soro de leite ou sucralose que vai nele.

Uma coisa complicada é que as embalagens dos chocolates nunca são cor cinza-elefante-desmaiado. Têm sempre cores vibrantes, igual no McDonald’s, que pesquisas filhas da p já indicaram que abrem o apetite. Mais uma estratégia: nunca entre no corredor do supermercado onde eles te esperam de braços abertos.

Mas tem um lugar onde não dá pra evitá-los: a farmácia. A gente está ali comprando remédio para controlar a ansiedade e, quando chega ao caixa, tem o quê? Um expositor cheio de chocolates de todas as sortes (para o nosso azar), repousando, inocentes, no meio de barras de cereal e Epocler. Confesso: sempre saio de lá com uma barrinha. Hoje opto pelo Linea ao leite ou branco com Oreo, já provou? Não prove. Justifico para mim mesma, dizendo que é uma pequena recompensa pelo tempo que fiquei no balcão esperando o atendente digitar em um formulário infinito, com etapas infinitas, e ainda chamar a farmacêutica, inevitavelmente ocupada, para ver se meus medicamentos infinitos batem com a receita.

Agora, vem cá: por que evitar o chocolate e não se render ao prazer? Eu poderia dizer que “faz mal para a saúde”. Eu não estaria errada. Mas, sejamos sinceros, o lance tem mais a ver com o abdômen, precisamente, com a pochete e o pneu.

No meu caso, de fato, faz mal à saúde: piora a minha labirintite. Numa crise de tontura abissal, contrariando a contraindicação, depois de ganhar duas barras densas de chocolate da minha irmã no meu aniversário – que achava que eu era um ser humano razoável como ela, que come dois quadradinhos por dia –, “experimentei” o meu presente todo. Naquele dia, só não fui parar no hospital porque era tarde, então tomei tudo o que era medicamento pra sossegar o labirinto e dormi. No outro dia, me dei conta de que havia outra barra na sacolinha de presente. Lamentei, mas não teve jeito, mandei ver. O resultado foi que isso me incapacitou de vez e tive que passar no médico, que já havia me dado aquela letra faz tempo. Ele fez uma careta, como se tivesse comido chocolate amargo, e soltou: “Preciso falar?”

É importante saber que nem todos os chocolates são iguais. Existem vários tipos. Por exemplo:

  • Para parar de chorar: barra ao leite. Depois do último quadradinho, pode secar as lágrimas que passou;
  • Para ansiedade: Bis;
  • Para final da novela: caixa de bombom de qualquer espécie;
  • Para curar fim de namoro: nesse caso, você vai precisar investir em drogas mais pesadas, encontradas na Kopenhagen. Término de comum acordo: língua de gato. Se foi você que terminou: lajotinha. Tomou um pé na bunda por WhatsApp: caixa de nhá-benta.
  • Para lembrar a infância: moedinha sabor chocolate;
  • Para travar o maxilar (de tão doce): Laka;
  • Para comer escondido, dois casos:

1. Bolinhas vermelhas da Lindt, pra não ter que dividir com ninguém.

2. Guarda-chuvinha sabor chocolate da Pan, para não ter que assumir que você ainda adora (falo por mim).

E tem os polêmicos: eu achava que todo mundo abominava chocolate com recheio de morango. Ledo engano. O Sensação é uma sensação! Mais uma: sabe o bombom de ameixa da caixa Especialidades Nestlé? Eu era uma das dez pessoas que gostavam dele. Acho que essas pessoas foram morrendo e ele, infelizmente, caiu em desuso.

A verdade é que eu posso até evitar o chocolate. Realmente, em grandes doses, faz mal pra saúde. Mas, em pequenas doses ele é fundamental pra saúde, mesmo que mental. E o prazer de comer um chocolatinho depois do jantar, assistindo a uma série, não tem compulsão, labirintite ou uns quilinhos a mais que vão me tirar.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.





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