Parece que há briga quando falta pão, mas a contenda também ocorre quando sobra o santo alimento

Flávio Bolsonaro parece estar tendo mais dificuldade para aplacar as desavenças caseiras que a ira dos adversários. Não passa uma semana sequer sem que alguém fale das intrigas envolvendo Flávio, os irmãos e a mulher do pai. Tentar aplacar esse bochicho é colocar a mão em vespeiro.
A primeira vez em que ouvi a frase “na casa que não tem pão, todo mundo grita e ninguém tem razão” foi lá nos anos 1980 em um programa matutino da extinta rádio Excelsior, com o jornalista Ferreira Neto. Imaginei que não fosse nada novo, mas achei interessante, pois é quase sempre uma grande verdade.
Sobrando pão nessa casa
Os episódios da família bolsonarista, envolvendo Flávio, Eduardo, Carlos, Renan e Michelle, mostram outro lado dessa velha e batida frase. Se analisarmos, até bem pouco tempo atrás, a impensável candidatura de Flávio à presidência e os resultados dos levantamentos mais recentes, que chegam a colocá-lo em primeiro lugar nas pesquisas, nessa casa deveria estar sobrando pão.
Pois é, parece que há briga quando falta pão, mas a contenda também ocorre quando sobra o santo alimento. Quando falta, brigam porque há disputa pelas migalhas e a necessidade de que alguém seja culpado pela escassez. Quando sobra, digladiam-se porque a maioria deseja um naco desses louros.
Todos acham que têm direito
Assim como a harmonia familiar acaba na hora do testamento, na política não é diferente. Por que ele e não eu? Afinal, tenho mais cacife junto ao eleitorado, aguentei de perto as agruras do presidente, sei exatamente o que ele deseja para o futuro do país. Ah, mas eu tenho mais experiência e fui ungido para concorrer pela vontade do próprio presidente.
Nesses 50 anos atuando como professor de oratória, já vi de quase tudo um pouco. Lembro-me de uma família de políticos muito importante em determinada região do país. Todos fizeram curso comigo. Não apenas os candidatos, como também as esposas, que tinham papel preponderante na campanha. Bastava começar o período de eleições que eles apareciam em revoada. Como quase todos se elegiam, o treinamento dos discursos virou uma espécie de amuleto.
Faltava vaga
Ocorre que depois de uma época a família cresceu e não havia mais cargos para todos. Houve, por isso, uma dissidência. Os dissidentes e seus herdeiros não abriram mão de frequentar a minha escola. Não perderiam por nada o pé de coelho. Foi aí que quase caí de costas. Precisei me beliscar para acreditar no que ouvia.
Um deles, bastante jovem, havia sido criado com os primos. Frequentava a casa da tia praticamente todos os dias para brincar, tomar chá e comer bolo. Na hora de treinar o discurso, passou a revelar os segredos que conhecera nesses dias de folguedos com os primos. Interrompi na primeira vez e alertei para o fato de que esse tipo de revelação poderia se voltar contra ele mesmo. Qual o quê! A resposta foi dura e assertiva: professor, não tem nada de pessoal, é só política.
Fogo amigo
Não é difícil deduzir que todos tiveram prejuízos eleitorais. Com essa intriga, abriram espaço para que os concorrentes criassem asas e tomassem uma parcela dos eleitores. Ou seja, com aquele fogo amigo nem era preciso ser muito adversário para levar vantagem.
Flávio, embora beneficiado com a indicação do pai, é o maior prejudicado nesse bate-boca. Depois de vender que é uma pessoa moderada, equilibrada, sensata, para, talvez, se diferenciar do espírito beligerante do pai, precisa seguir com o figurino. A toda hora tenta mostrar esse lado apaziguador. Diz, com razão, que o inimigo está do outro lado e que no fim todos acabam por entender e caminhar juntos na campanha.
Esperança ou convicção?
Parece ser mais uma esperança que uma convicção. Não deve ser fácil. Ter de enfrentar Lula com toda a experiência política e a máquina do governo na mão, aguentar os competidores de direita, que torcem para que ele tenha um vacilo e comece a despencar nas pesquisas, e, ainda por cima, a família.
Talvez os familiares sejam o osso mais duro de roer. Como dizia Aristóteles na “Arte Retórica”: “Todos os que têm pares ou parecem tê-los sentirão inveja. Chamo pares os que nos são iguais por nascença, parentesco, idade, disposição, reputação, bens em geral.”
Parente sente inveja
E para fechar o raciocínio na tentativa de entendimento das rusgas do clã Bolsonaro, mais uma vez o filósofo grego esclarece: “Invejam-se as pessoas que nos são chegadas pelo tempo, pelo lugar, idade e reputação. Donde o provérbio: os parentes também sabem ter inveja.”
Nada de novo, portanto, no quartel-general “do capitão” Abrantes. Há 2.400 anos, Aristóteles, chamado por Platão de “a inteligência”, já desvendava esse sentimento perverso que se incrusta no coração das pessoas. Nesses séculos todos nada se alterou. Ao contrário, dá a impressão de que se enraizou ainda mais profundamente.
Que Flávio tenha boa sorte nessa brigalhada caseira. Quem sabe se um susto com algum tipo de engasgo nas próximas pesquisas, faltando um pouco de pão, possa fazer com que a família deixe de ser solidária apenas nas fotos, mas que seja também na lida do dia a dia. Siga pelo Instagram: @polito
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.
