Senado pode negociar, mas não pode impor nome de ministro para o STF, diz líder do governo Lula

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THAÍSA OLIVEIRA E CAIO SPECHOTO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Líder do governo e nome próximo do presidente Lula (PT), o senador Jaques Wagner (PT-BA) afirma que o Senado “escorregou” ao recusar a indicação de Jorge Messias para o STF (Supremo Tribunal Federal) e diz que quem “armou o time contrário” sabia bem o placar da derrota.

Em entrevista à Folha, Wagner diz que a questão foi “mal conduzida” pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e seu preferido ao STF, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG). “A prerrogativa de indicar é do presidente. Uma coisa é negociar, outra coisa é impor”, afirma.

O senador admite ter ouvido de Lula a ideia de indicar Messias de novo, mas diz não saber se a decisão já está tomada. Wagner afirma que o presidente e Alcolumbre devem refazer a relação: “Ninguém vai ficar menino zangado o tempo todo”.

O presidente quer indicar Messias ao STF de novo?

Ele comentou isso, não sei se decidiu. Comentou com mais pessoas: ‘Estou pensando’. Mas não sei se é um pensando ainda no calor do resultado ou se é uma coisa elaborada.

O sr. ouviu esse comentário?

Ouvi.

A norma impede o Senado de votar neste ano.

É, aí ficaria para ser votado ano que vem. Há quem diga —porque todo regimento tem interpretação— que não é bem assim, mas não acho que vale a pena entrar nessa discussão.

O presidente quer reforçar que a indicação ao STF é prerrogativa dele ou impedir especulações sobre o novo escolhido?

Diria que a primeira hipótese tem mais lógica que a segunda. O Senado escorregou na institucionalidade. Qual o sentido da sabatina? [Avaliar] notório saber jurídico e reputação ilibada. Ninguém questionou isso em relação ao Messias. Objetivamente, não tinha motivo para derrotá-lo. Na minha conta, a gente teria de 41 a 43 votos. Acho que houve uma operação nas 48, 72 horas [antes da votação], para derrotar. Teve o trauma do Rodrigo, que na minha opinião não foi bem conduzido. A prerrogativa de indicar é do presidente. Uma coisa é você negociar, outra coisa é impor.

A questão do Pacheco não foi bem conduzida por quem? Por Lula?

Não. Por eles. Ele e o Davi. O presidente convida o Rodrigo para ser [candidato a] governador de Minas, não é pouco importante. Eu cheguei a dizer a eles: vocês querem ir lá dizer que declinam do convite, mas querem um outro convite, para o STF? A conta não fecha.

A nova indicação seria só depois da eleição?

Acho que ele não parou para fazer essa avaliação. Ainda não teve o encontro dele com Davi após a derrota. Acho que eles vão voltar a se falar. Ninguém vai ficar menino zangado o tempo todo.

Concorda em insistir no Messias?

Não opino antes da decisão do presidente. Quer que eu perca meu emprego? As pessoas acham que eu mando na cabeça do Lula. É uma imbecilidade. Acho que, depois de tudo que aconteceu na vida do presidente, essas escolhas são de foro íntimo dele. Quando estava essa discussão sobre o Rodrigo, eu ouvi um comentário interessante: ‘Vocês ainda não se deram conta que ele está botando gente que trabalhou com ele, que ele conhece profundamente?’.

Mas o critério da lealdade a ele não é questionável?

Alguém faz diferente?

Ele e Dilma Rousseff fizeram um pouco diferente em governos passados, não? Indicaram ministros que não eram tão próximos do governo.

Sim, tomamos na cabeça em alguns casos. Lula vai indicar um adversário? Ou acreditar nesse sonho inexequível de que tem alguém acima do bem e do mal? Não existe isso. É um processo de criminalização da política.

O mapa de votos do governo indicava, no pior cenário, só os 41 necessários. Não foi arriscado?

Lembre que ninguém foi tão largo na vitória. Eu dizia que, se a disputa era com Lula, ela poderia ser feita em projetos que interessam ao governo. Quando você transpõe para algo que é prerrogativa do presidente, você derrota esse e ele vai escolher outro. Óbvio que houve traição. Ganharam o quê? Nada.

Ele teve 34 votos. O mapa do governo estava errado.

Não estava errado, muita gente mentiu. Eu não estou procurando quem traiu porque posso fazer uma tremenda injustiça. Quem sabe essa conta é quem armou o time contrário.

Quem armou o time contrário?

Ah, não sei. Muita gente. Quando eu subi na tribuna, o Davi não falou ‘Vocês vão perder por 8’? A gente perdeu por 7.

Parte do governo e da militância te acusou de traição e te culpou pela derrota. Isso te chateou?

Só devo satisfação a uma pessoa, Lula. Pelo visto ele não botou na minha conta, senão teria me tirado daqui. Tem muita gente que adora, em vez de buscar solução, buscar culpado. Já estou acostumado, mas é óbvio que não gosto. Estou preocupado agora com o processo eleitoral e isso não vai bulir em nada. Pode ter bulido até positivamente. ‘Sacanagem o que fizeram.’ A vida não é uma linha reta.

Lula quer reatar com Alcolumbre?

Não houve uma declaração de guerra entre os dois, mas há um mal-estar. O Lula é tarimbado o suficiente, eu creio que o Davi também, para saber que os presidentes da República e do Senado não podem estar não se falando.

Tem chance de a relação voltar a ser como era antes da indicação de Messias?

Lula não é de guardar rancor. Ele tem um projeto muito mais importante do que uma briguinha particular com quem quer que seja.

O ministro do STF André Mendonça, relator do caso Master, foi um dos principais cabos eleitorais do Messias. O sr. acha que o medo de que os dois se aliassem contribuiu para a rejeição?

Não acho que, pelo que conheço do André Mendonça, ele vá fazer um negócio reativo. O caso Master é espinhoso para quem estiver no caminho. Acabou de estourar com o Flávio Bolsonaro [PL], que disse que não conhecia o cara [Daniel Vorcaro, antigo dono do banco]. Teve a coisa com o Ciro Nogueira [PP], que também por enquanto é só investigação. Mas eu não tive nenhuma conversa com o André. Não conversei com ninguém, porque também falavam que o Flávio Dino e o Alexandre de Moraes estavam contra. Se alguém tinha que entrar nisso era o presidente Lula, que também não entrou quase nada. Ele fez a indicação e confiou que o pessoal ia respeitar. Eu também estava apontando para ele minha conta.

O sr. está no caminho do Master?

Eu não estou no caminho, estou muito à vontade com isso. Já expliquei dez vezes. Agora, o lado de lá, como não tem o que explicar, [fica dizendo]. Vide o que aconteceu com o Flávio. Ele não conhecia o cara, depois pediu R$ 134 milhões. Depois foi visitar o cara. As coisas vão aparecer. Sobre o PT da Bahia, tínhamos um trambolho [no governo do estado] que era uma rede de supermercado estatal, com um cartão de compras que estava dentro disso. Nós privatizamos. Fomos duas vezes para a Bolsa de São Paulo, deu vazia. A partir daí você tem o direito de fazer uma chamada pública na Bahia. Apareceu o Augusto Lima, que já trabalhava com cartão de benefício, sindicatos, etc, junto com um espanhol, e resolveram comprar. O Vorcaro entra nisso depois da venda. Nunca falei com ele sobre Cesta do Povo, nunca. Nunca falei com ele.

O sr. tem relação com o Augusto Lima?

Conheci na venda do negócio. Várias vezes eu conversei com ele, acaba-se tendo uma relação. É um baiano que se relaciona com muita gente, com João Roma [presidente do PL-BA e ex-ministro de Bolsonaro], com ACM Neto e comigo. Aí tem a história da minha nora [o Master declarou ter pago R$ 12 milhões à empresa da nora de Wagner, que afirma ter prestado serviços regulares ao banco]. A minha nora, quando fez negócios com o banco, foi no governo Bolsonaro. Seguramente não fui eu que intermediei.

O sr. não sabia do contrato?

Claro que não, nunca soube. Eles são maiores de idade, tocam a vida deles.

Pesquisa da Atlas mostrou que Flávio Bolsonaro caiu nas intenções de voto. Acha que a candidatura dele vai derreter?

Gosto de dizer que não escalo time adversário. Acho que ele vai entrar no viés de baixa, mas não vai, na minha opinião, a não ser que esse troço cresça muito, descer no bloco ‘fanatizado’ [em referência ao grupo de eleitores fieis ao bolsonarismo].

  • RAIO-X | Jaques Wagner, 75

Senador pelo PT, é líder do governo no Senado. Foi ministro do Trabalho e das Relações Institucionais, nos governos Lula, ministro da Defesa e da Casa Civil, no governo Dilma Rousseff, e governador da Bahia.



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