China reabre as portas para a carne brasileira, mas tenta redesenhar as regras do jogo

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Reabilitação de frigoríficos traz alívio ao agro, enquanto Pequim sinaliza que pretende depender menos do Brasil

BRA08. RÍO DE JANEIRO (BRASIL), 17/03/2017.- Fotografía de carne para la venta hoy, viernes 17 de marzo de 2017, en Río de Janeiro (Brasil). La Policía Federal brasileña desarticuló hoy una gigantesca red criminal, que involucraba a varias de las mayores productoras de carnes del país y que sobornaba a fiscales sanitarios para poder vender carne adulterada, no apta para el consumo y hasta vencida, informaron fuentes oficiales. EFE/Marcelo SayãoEFE/Marcelo Sayão
Carne brasileira no Rio de Janeiro – EFE

A reabertura de frigoríficos brasileiros para exportação de carne bovina à China representa um respiro importante para o agronegócio nacional. Após meses de restrições sanitárias e suspensão de unidades exportadoras, Pequim voltou a autorizar plantas brasileiras, num gesto interpretado pelo setor como sinal de reaproximação comercial.

Hoje, o Brasil mantém 66 frigoríficos habilitados a exportar carne bovina para a China, consolidando sua posição como maior fornecedor da proteína bovina ao mercado chinês. A relevância brasileira nesse mercado é estratégica: a cota concedida ao Brasil é mais que o dobro da destinada à Argentina, reforçando o peso do país dentro da cadeia global de abastecimento de proteína animal.

Mas a boa notícia chega acompanhada de um novo desafio.

Enquanto flexibiliza barreiras sanitárias, a China endurece sua política comercial para reduzir a dependência de proteína importada e fortalecer sua produção doméstica. Na prática, trata-se de uma mudança estratégica com potencial de impactar diretamente o Brasil.

Desde o início deste ano, Pequim passou a operar com um sistema de cotas tarifárias para a carne bovina importada. Dentro de um limite anual estimado em 1,1 milhão de toneladas, a tarifa de importação permanece em 12%. Ultrapassado esse teto, a cobrança salta para 55%, percentual considerado praticamente inviável para manter a competitividade do produto brasileiro.

O movimento dos exportadores foi imediato. Entre janeiro e abril, o Brasil acelerou os embarques numa corrida para aproveitar a faixa tarifária mais vantajosa antes do esgotamento da cota. Dados do setor apontam crescimento superior a 50% no volume exportado em comparação com o mesmo período do ano passado.

A lógica é clara: garantir mercado antes que a porta se feche. E esse não é um problema exclusivamente brasileiro. A Austrália, outro grande fornecedor de carne bovina à China, também já se movimenta diplomaticamente para ampliar cotas ou renegociar tarifas. O temor entre exportadores é que a China esteja usando a política comercial como ferramenta de reorganização estrutural do seu abastecimento alimentar.

Com mais de 1,4 bilhão de habitantes, segurança alimentar é um tema estratégico para Pequim. Dependência excessiva de importações significa vulnerabilidade geopolítica. O movimento chinês indica um esforço claro para ampliar a autossuficiência e reduzir a exposição a fornecedores externos.

Ao mesmo tempo, a aproximação comercial entre China e Estados Unidos adiciona uma camada extra de imprevisibilidade ao cenário, redistribuindo interesses e reposicionando fornecedores globais.

Para o Brasil, a reabertura sanitária é positiva e preserva um mercado essencial para a balança comercial brasileira. Vale lembrar que as restrições impostas anteriormente atingiram frigoríficos brasileiros sob alegações sanitárias, gerando apreensão no setor justamente por envolver o principal destino da carne bovina nacional.

Agoraa discussão pode tomar novos desdobramentos. Nos últimos dias, a visita do presidente americano Donald Trump a Pequim recolocou os Estados Unidos no centro da disputa pelo mercado agrícola chinês, com anúncios de novos compromissos de compra de produtos agropecuários americanos e retomada de negociações comerciais entre as duas potências. Nesse contexto, a sinalização chinesa pode ser lida não apenas como um gesto de normalização com o Brasil, mas como parte de uma estratégia mais ampla de diversificação de fornecedores e redução de dependência externa.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.





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