
Screamer chega em 2026 como uma espécie de reboot de uma franquia que nasceu lá nos PCs nos anos 1990. Confesso que não tive contato com os jogos originais, então minha expectativa aqui foi construída quase que totalmente em cima do que vi nos trailers — e eles vendiam a ideia de um jogo de corrida arcade, rápido, agressivo e com uma pegada que lembrava bastante Burnout, uma série que, convenhamos, faz falta.
O que eu não esperava — e é uma surpresa agridoce — é o tanto de história que Screamer tem para contar: o jogo aposta pesado em narrativa, com uma estrutura que flerta bastante com visual novels e storytelling mais denso. E é justamente essa mistura de corrida arcade com uma história mais elaborada que define a identidade do jogo… para o bem e para o mal.
Campanha e narrativa
Em Screamer, a narrativa gira em torno de um torneio clandestino de corridas extremamente perigosas, organizado por uma figura misteriosa conhecida apenas como “Mr. A”. Esse campeonato promete uma premiação bilionária, o que faz com que pilotos de diferentes origens — de soldados e cientistas a celebridades e criminosos — formem equipes e inscrevam-se, todos movidos por motivações muito pessoais, como ambição, vingança ou redenção.

Um detalhe muito legal é que você não escolhe seu corredor preferido: a campanha acompanha todas as histórias de forma entrelaçada, alternando entre diferentes personagens e equipes, cada um com sua própria trajetória dentro do torneio. Assim, enquanto aprofundam-se as rivalidades e alianças entre os personagens, temos tempo de conhecer (e jogar) com todo mundo.

Esse elenco diverso ajuda a construir um universo mais rico, onde cada corrida tem um peso dramático maior. Afinal, não se trata apenas de chegar em primeiro lugar, mas de sobreviver e alcançar aquilo que cada piloto foi buscar. Em seus melhores momentos, Screamer alterna entre diferentes pilotos/equipes durante uma mesma corrida, combinando narrativa e gameplay com muito dinamismo.
Essa combinação funciona?
Sim e não. No geral, é uma proposta bastante ambiciosa para o gênero — combinar uma experiência narrativa contínua de um jeito que é quase como uma visual novel misturada com corrida arcade. Isso é um diferencial claro, mas também é uma quebra do ritmo tradicional do gênero, pois você pode ocasionalmente passar vários minutos acompanhando os papos e intrigas entre os personagens, sem de fato pisar no acelerador.

Se isso é positivo ou negativo vai depender muito da sua disposição para acompanhar a história. Screamer aposta tão forte em sua narrativa, que há capítulos em que você praticamente não joga, apenas assiste às interações entre os personagens.
Particularmente, acho que a trama é interessante e tem bons personagens, o que ajuda a dar identidade ao jogo. Porém, é inegável que o ritmo sofre. Em uma campanha relativamente longa, esse excesso de diálogos podem acabar cansando, especialmente para quem busca uma experiência mais focada na velocidade.
Tá mas e a parte de corrida é boa?
Sim! Quando Screamer deixa a narrativa um pouco de lado e foca nas corridas, ele realmente faz jus à expertise da Milestone Srl — estúdio italiano que passou as últimas décadas desenvolvendo exclusivamente jogos de corrida dos mais variados, como Ride, Hot Wheels Unleashed, MotoGP e Monster Energy Supercross. O gameplay é ágil, responsivo e muito prazeroso, com aquela pegada arcade agressiva que valoriza direção perigosa e manobras arriscadas.

Um dos grandes diferenciais está no sistema de controle, que é bem peculiar. Aqui, o analógico esquerdo controla a parte dianteira do carro, enquanto o direito responde pela traseira. Isso cria uma dinâmica muito particular na hora de fazer curvas e, principalmente, drifts. No começo pode parecer estranho, mas quando você se acostuma, percebe o quanto esse sistema dá liberdade e precisão para conduzir de forma mais arriscada — e os drifts são fundamentais para encher os medidores que nos permitem ativar boosts, escudos e habilidades especiais — sim, cada carro (e piloto) possui uma habilidade única.
Outra novidade é o sistema de Active Shift. Lembra da recarga turbinada (Active Reload), de Gears of War? É meio que a mesma coisa, mas aqui a ideia é trocar a marcha no momento certo. Internalizar isso é essencial para alcançar a máxima performance de cada carro durante as corridas mais disputadas.
Falando em disputa, vale destacar que o jogo é bem desafiador: durante a campanha, nem sempre o objetivo é chegar em primeiro, mas quando for, você vai suar. O jogo exige que você dirija de forma agressiva, explore atalhos e domine bem todas as mecânicas únicas que ele disponibiliza. Com isso, pequenos erros e colisões bobas podem comprometer toda uma corrida.
Por fim, embora a campanha seja o foco principal — com corridas mais exigentes e contextualizadas pela história –, o game também oferece modos de jogo mais tradicionais. Depois de liberar carros e pilotos jogando a história, é possível aproveitar corridas rápidas, multiplayer local em tela dividida e partidas online. Ou seja, dá para curtir o gameplay de corrida “puro”, sem precisar lidar com a narrativa e os longos diálogos da campanha.
Audiovisual
No departamento audiovisual, Screamer é um jogo muito bem resolvido. Durante as corridas, o visual impressiona: temos carros estiloso com designs aerodinâmicos e cheios de personalidade. A ambientação cyberpunk também contribui com a identidade visual do game, com uma estética futurista cheia de néon e backgrounds de grandes metrópoles ao fundo dos percursos.

Essa identidade também passa fortemente pela estética de anime, que permeia tanto o visual quanto a narrativa. Existem cenas “de alto orçamento”, bem animadas e cheias de estilo, mas boa parte da história segue aquele formato mais tradicional de videogame, com personagens estáticos e caixas de diálogo. Funciona, mas não mantém o mesmo nível de impacto das melhores sequências animadas.
Um detalhe interessante está na forma como o jogo lida com a dublagem em diferentes idiomas. No universo de Screamer, existe uma tecnologia de tradução automática, o que permite que personagens de diferentes nacionalidades conversem e se entendam em vários idiomas — tipo um piloto francês fala francês, um alemão fala alemão. Isso dá um charme extra à apresentação e reforça a identidade de cada personagem dentro desse campeonato de alcance global.

E já que falamos em dublagens, o som é outro acerto. A trilha sonora passeia entre o rock industrial e a música eletrônica, combinando bem com a ambientação cyberpunk e o ritmo acelerado das corridas. Os efeitos sonoros são igualmente competentes, especialmente na forma como transmitem o peso e a potência dos motores dos carros .
Vale destacar também o bom uso do DualSense (no PS5), que ajuda na imersão e até na jogabilidade. Conforme você internaliza as ações do jogo, é possível “sentir” o motor carro e o momento ideal de realizar a troca de marchas pela vibração do controle, sem depender tanto dos indicadores visuais (há muitos deles pela tela).

Para completar, embora (infelizmente) não tenha um piloto brasileiro falando em português, o jogo conta com menus, legendas e tutoriais em português brasileiro, garantindo que todos possam acompanham a trama sem barreiras idiomáticas.
Conclusão
No fim das contas, Screamer é um ótimo jogo — ainda que sua campanha tenha um ritmo que pode cansar em alguns momentos. A proposta de misturar corrida arcade com uma narrativa densa estilo visual novel é interessante e ousada, mas a execução nem sempre acompanha essa ambição. Em vários trechos, fica a sensação de que você passa mais tempo assistindo do que jogando, o que pode afastar jogadores menos pacientes.

Por outro lado, quando o jogo coloca você na pista, ele entrega uma ótima experiência. O gameplay é ágil e bem calibrado, e as criativas mecânicas próprias do game tornam o ato de pilotar aqui muito diferente de outros jogos de corrida estilo arcade. Carece de um período de adaptação — especialmente pelo nível de desafio — mas compensa o jogador dedicado com momentos de pura adrenalina que podem virar vitórias épicas. A variedade de carros, cada um com suas particularidades, deixa tudo ainda mais legal.

Screamer é um jogo ambicioso, tanto em narrativa quanto em gameplay, que entrega uma experiência muito única que nenhum outro game de corrida oferece. É um pouco mais desafiador do que precisava ser, mas superar os desafios da campanha vão lhe permitir entrar com mais confiança nos outros modos de jogo — seja sozinho ou no multiplayer.
Screamer está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada) e Xbox Series.
