A história do Asilo Arkham no universo de Batman: da concepção nos quadrinhos à franquia de jogos

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O Asilo Arkham é o principal local de internação para boa parte dos vilões do Batman, desde que os quadrinhos começaram a tratar grande parte destes personagens como pessoas com transtornos mentais, ao invés de serem simples pessoas que fazem o mal para “roubar um banco” ou “dominar a cidade”.

Surgido em 1974, o lugar passou de uma referência simples em uma edição de quadrinhos para um pilar da segurança e política de Gotham City, que redefiniu as histórias do Homem-Morcego e serviu de base para uma série de jogos que vendeu milhões de cópias em todo o mundo, entre capítulos novos, relançamentos e spin-offs.

Tanto é que a maioria dos vilões, atualmente, vão parar no asilo. Apenas o Pinguim, Mulher-Gato, Máscara Negra, Exterminador e o Pistoleiro, entre outros poucos vilões, vão parar em Blackgate, a prisão local. A maioria acaba mesmo indo para o Arkham.

Uma detenção diferente para vilões diferentes

A concepção do Asilo Arkham surgiu durante uma conversa informal entre o escritor Dennis O’Neil e o editor Jack C. Harris. Harris sugeriu em um jantar, que os vilões do Morcego, como o Coringa e Duas-Caras não deveriam ser levados para prisões comuns quando captutados, mas em um manicômio inspirado na cidade fictícia de Arkham, criada por H.P. Lovecraft.

Arkham (não o asilo, claro) é uma cidade fictícia em Massachusetts, criada por H.P. Lovecraft, famosa como sede da Universidade Miskatonic e centro de horrores cósmicos em seus contos. É descrita como uma cidade antiga, com telhados em gambrel e uma atmosfera sinistra. E serviria de local para abrigar os piores vilões capturados por Batman.

O’Neil gostou da ideia e a usou na história “A Ameaça da Moeda de Duas Cabeças”, publicada em Batman #258, lançada em outubro de 1974 nos EUA. Na edição, o local aparece como Arkham Hospital, descrito como “um nome educado para um asilo que abriga os criminosos mais insanos”.

Danvers State Hospital, o local que inspirou Lovecraft e, por tabela, o mundo de Batman

Harris explicou melhor a concepção do novo local em uma entrevista: “Eu disse a Denny que criminosos como Duas-Caras e o Coringa não deveriam ficar só na cadeia. Eles são loucos. E que lugar melhor do que o Asilo Arkham das histórias do Lovecraft?”. O’Neil confirmou a sugestão e incluiu um detalhe: o militar que liberta Duas-Caras na história se chama John Harris, uma referência e homenagem ao colega.

Em edições seguintes, o hospital mudou de nome e passou a se chamar Asilo Arkham, como conhecemos hoje. Em Batman #326, de 1980, escrito por Len Wein, o local ficou definido como um hospital de segurança máxima nos subúrbios de Gotham City. A história completa do asilo, no entanto, só ganharia forma em 1985, no guia Who’s Who in the DC Universe, também de Wein, que detalhou a sua fundação pelo psiquiatra Amadeus Arkham em 1921.

Amadeus Arkham herdou a mansão da família e a transformou em hospital psiquiátrico após tratar a mãe, Elizabeth Arkham, que sofria de problemas mentais. Uma tragédia pessoal marcou o lugar: o serial killer Martin “Mad Dog” Hawkins matou a esposa e a filha de Amadeus durante a construção. Amadeus executou o paciente anos depois e acabou internado no próprio asilo, onde morreu.

Essa origem sombria foi explorada em profundidade na graphic novel Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth (disponível na Amazon), de Grant Morrison e Dave McKean, lançada em 1989. O livro mostrou Batman preso dentro do asilo durante uma rebelião liderada pelo Coringa e trouxe os diários de Amadeus com simbolismo psicológico, dentro do contexto da história.

Mas apesar do ar sombrio do local, não podemos esquecer também que, desde o início, o Asilo Arkham também serviu como “porta giratória” para os vilões do Batman. O Coringa foi o primeiro a escapar, e fugas constantes viraram algo recorrente, dando mais trabalho para o Batman para prender um vilão que, cedo ou tarde, vai sair de lá de novo.

O lugar abriga não só criminosos insanos, mas também pacientes com necessidades especiais, como o Senhor Frio, que exige celas refrigeradas. Mas a segurança falha, corrupção de funcionários e reconstruções frequentes após destruições (como na saga A Queda do Morcego) reforçaram a imagem de um sistema que não consegue conter o caos de Gotham. E que deixa escancarado a decadência da cidade, já que o local é palco para quase tudo, menos a sua função original.

Em 2009, o asilo ganhou nova dimensão com o jogo Batman: Arkham Asylum, desenvolvido pela Rocksteady Studios e escrito por Paul Dini. Desta vez, é Batman que vai parar para dentro do asilo durante um plano do Coringa que envolve reféns, bombas e a droga Titan. O jogador poderia, enfim, explorar as instalações do famoso local, descobrindo até que Batman tinha uma Batcaverna especial por ali, por entender bem a dificuldade que aquele local representa.

O game usou elementos dos quadrinhos, especialmente a graphic novel de Morrison e McKean, além de influências visuais de Neal Adams e Frank Miller. O sucesso levou à sequência Batman: Arkham City (de 2011, quando uma região inteira de Gotham virou Arkham, largada à própria sorte), ao prequel Batman: Arkham Origins (2013, pela WB Games Montréal) e ao fechamento da trilogia com Batman: Arkham Knight (2015).

O Asilo Arkham deixou de ser só um cenário de quadrinhos e virou mais um personagem de uma franquia que definiu jogos de super-heróis por mais de uma década.

Batman colocou a ficção e a realidade para conversar sobre saúde mental

Presidente Kennedy assinando a CMHA. Imagem: Domínio Público

O surgimento do Asilo Arkham em 1974 coincide com a Era de Bronze dos quadrinhos, período em que Batman voltou a um tom mais sombrio após o estilo leve dos anos 1960, potencializado pelo famoso seriado pastelão do Batman de Adam West.

Paralelo a isso, os Estados Unidos viviam o auge do movimento de desinstitucionalização da saúde mental, impulsionado pela Lei de Saúde Mental Comunitária de 1963. Hospitais psiquiátricos grandes estavam sendo fechados em favor de tratamentos locais, mas a transição gerou críticas sobre abandonos de pacientes graves e aumento da criminalidade ligada a transtornos mentais.

A CMHA, como a lei ficou conhecida, foi sancionada pelo então presidente John F. Kennedy nos EUA, e financiou a construção de centros de saúde mental locais para desinstitucionalizar pacientes, transferindo-os de grandes hospitais psiquiátricos para cuidados comunitários. A lei tinha a intenção de oferecer tratamentos mais humanizados e ambulatoriais, com a ideia de reduzir drasticamente o número de pacientes internados, embora tenha enfrentado desafios de implementação e financiamento a longo prazo.

Presidente Kennedy em 1963, na convenção da National Association for Retarded Children. Imagem: Domínio Público

O financiamento e a construção desses centros não acompanharam o ritmo das altas hospitalares. Isso resultou em milhares de pacientes com doenças mentais graves sendo liberados sem moradia, acompanhamento médico ou suporte social adequado.

E com a falta de centros comunitários funcionais, muitos ex-pacientes tornaram-se moradores de rua ou acabaram cometendo crimes em geral e indo parar nas cadeias do país, em um fenômeno conhecido como a “transinstitucionalização”, com pacientes saindo do manicômio para a prisão.

No universo de Gotham, o Asilo Arkham reflete exatamente essa questão: um sistema que mistura loucura e crime sem resolver nenhum dos dois. Fugas constantes e diretores que enlouquecem ou se entregam para a corrupção, mostram um lugar onde a linha entre paciente e criminoso se apaga.

A influência de Lovecraft soma ainda mais nesta ideia, ao adicionar elementos góticos: o nome e a atmosfera remetem a histórias de horror em que a mente humana se desfaz diante de forças incontroláveis, espelhando o medo cultural dos anos 1970 com violência urbana, trauma e colapso social.

O local serve como ponto de debate sobre como a sociedade trata a doença mental. O asilo vira metáfora de um ambiente que agrava os problemas em vez de curá-los, com terapias obsoletas, superlotação e poder corrompido. É só você se lembrar como e onde a Arlequina nasceu.

Nos jogos da Rocksteady, o tema ganha ainda mais visibilidade: o jogador vê de perto o cotidiano de celas, interrogatórios e rebeliões, ampliando o alcance da discussão para milhões de pessoas que nunca leram os quadrinhos originais.

Hoje, o Asilo Arkham continua presente em adaptações de séries, filmes e novos games, mantendo viva a reflexão sobre os limites entre justiça, saúde mental e o que uma cidade como Gotham faz com quem não se encaixa nas regras. O local, criado quase por acaso em uma conversa de jantar, se transformou em um dos símbolos mais duradouros do universo do Batman.

Fontes consultadas:

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Junior Candido

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