
ChainStaff é um jogo de ação e tiro 2D com forte inspiração no clássico Contra. Mas, apesar das referências claras, ele se destacar ao apostar justamente no equipamento que dá nome ao jogo: a poderosa ChainStaff.
O caos biológico e a ChainStaff
A história se passa em um mundo (que talvez seja o nosso), onde algum tipo de invasor alienígena desconhecido — os Esporos Estelares — transformou a fauna e a flora em monstruosidades hostis e criaturas grotescas. É aquele tipo de cenário caótico, dominado por mutações fora de controle, que serve como desculpa para uma boa dose de ação desenfreada.

No centro disso tudo está um protagonista tão estranho quanto o mundo ao seu redor: um soldado híbrido, meio humano, meio inseto — na verdade é um humano com um hediondo inseto alienígena grudado na cabeça — que, por alguma razão, empunha a poderosa ChainStaff.
Uma mistura de bastão articulado com corrente e arpéu, a ChainStaff funciona como arma, ferramenta de defesa e é útil até na locomoção! De fato, todo o jogo parece construído ao redor da utilização do tal equipamento.

A proposta é simples e direta: abrir caminho na marra por este mundo distorcido, eliminando monstros, salvando (ou consumindo — logo falo mais sobre isso) outros sobreviventes e tentando conter o colapso biológico que tomou conta do planeta. Tudo isso com o suporte de uma trupe que parece saída diretamente de um filme de ação dos anos 1980.
Fluidez e carnificina
No geral, ChainStaff é um run and gun direto ao ponto, sanguinário e visceral, que aposta na intensidade e nos combates frenéticos contra monstros e chefes gigantes. O que traz um gostinho especial é justamente a mecânica central da ChainStaff — ferramenta que adiciona uma camada própria ao gameplay e transforma consideravelmente a forma como interagimos com o mundo do jogo.

O funcionamento desse equipamento é, talvez, o aspecto mais interessante: apesar de ser extremamente versátil, a Chainstaff não depende de comandos complexos ou menus cheios de opções. Tudo gira em torno de um único botão, que assume funções contextuais de acordo com a situação. Mirando para frente, você a utiliza como projétil; no ar, ela vira um gancho para locomoção; ao mirar para baixo, funciona como um escudo temporário; e, em outras situações, pode até ser cravada em superfícies para servir como plataforma. É um layout de controle elegantemente minimalista, que prioriza fluidez sem abrir mão da profundidade.
E essa escolha faz todo sentido dentro da proposta do jogo: como se trata de uma experiência bastante frenética, com muitos inimigos em tela e pouco espaço para erro, seria fácil transformar tudo em algo confuso ou truncado. Mas o uso simplificado da ChainStaff mantém o ritmo sempre no alto, permitindo que o jogador reaja rapidamente às situações.

Além disso, o jogo recompensa quem domina essas mecânicas — especialmente em se tratando de travessia e exploração — já que muitos coletáveis e segredos exigem um uso mais criativo da ChainStaff, seja escalando áreas menos óbvias ou improvisando para alcançar pontos escondidos do cenário.
Misericórdia ou sacrifício?
E já que falamos em coletáveis, ChainStaff toma um caminho um tanto perturbador na forma como nos oferece pontos de experiência e novas habilidades. Ao invés de itens tradicionais espalhados pelo cenário, o jogo apresenta soldados feridos que precisam de ajuda. Ao encontrá-los, precisamos tomar uma decisão: resgatá-los, arrancar seus cérebros ou devorar seus corações (?!).

Cada uma dessas escolhas concede um tipo diferente de benefício, funcionando como uma espécie de sistema de progressão vinculado a decisões morais. Salvar os soldados pode render certos upgrades tecnológicos, enquanto as opções mais sangrentas desbloqueiam habilidades mais brutais dentro da árvore de evolução do personagem. É um sistema interessante justamente por não ser óbvio: nem sempre a escolha “correta” do ponto de vista moral é a mais vantajosa em termos de upgrades.
E o mais legal é que o jogo não ignora essas decisões: se você consumir muitos soldados, seus companheiros começam a reagir, criticando suas ações via rádio. Isso cria uma camada narrativa que dialoga diretamente com o sistema de progressão, culminando inclusive em um final bom ou um final ruim, dependendo do seu comportamento.

No fim das contas, é uma mecânica de risco e recompensa bem integrada à ideia do herói-inseto-mutante, que reforça o tom sombrio do jogo e concede algum peso narrativo às escolhas do jogador, por mais simples que elas sejam.
Audiovisual
No departamento audiovisual, ChainStaff é um jogo que causa uma primeira impressão… peculiar. À primeira vista, tudo parece excessivamente poluído, com muitos elementos visuais competindo pela sua atenção. Mas, conforme você avança, essa “bagunça” começa a fazer sentido dentro da proposta.

É uma direção de arte que me lembrou outro indie game um tanto bizarro: Ultros. Em ambos os casos, a estranheza vai se dissipando com o tempo e, aos poucos, o jogador se acostuma e até consegue apreciar essa estética e enxergar uma certa beleza no caos — com destaque para o design das criaturas, que é bastante inspirado… e grotesco.
Essa identidade visual tem uma base bem interessante: o jogo se inspira em capas de álbuns de heavy metal e metal progressivo. Não é uma referência escancarada como em Slain: Back From Hell, por exemplo, mas que se faz presente nos detalhes — na geometria dos backgrounds, nas combinações inusitadas de cores — ou até de forma menos sutil nos nomes dos personagens, que trazem trocadilhos e referências ao universo do rock pesado.

No som, o jogo segue essa mesma linha, com uma trilha pesada para jogar batendo cabeça, assinada por Deon van Heerden, compositor conhecido por seu trabalho em Broforce. As músicas combinam bem com a ação frenética, ainda que não sejam particularmente memoráveis, e os efeitos sonoros cumprem bem o papel dentro do caos das batalhas. Vale destacar também que o jogo conta com localização em português brasileiro em menus e textos, o que facilita o entendimento tanto da história quanto das mecânicas apresentadas.
Conclusão
No fim das contas, ChainStaff é aquele tipo de jogo que, à primeira vista, pode parecer só mais um run and gun genérico — mas que logo mostra que tem algo a mais. E seu grande trunfo está justamente na ChainStaff. A forma como ela se integra ao gameplay, com fluidez e múltiplas funções, dá ao jogo uma identidade própria e sustenta boa parte da sua diversão.

Mas não é só isso. O sistema de escolhas envolvendo os soldados que encontramos pelo caminho, a progressão atrelada a decisões moralmente questionáveis e toda a estética estranha ajudam a construir uma experiência que foge do lugar-comum. ChainStaff pode não ser um jogo revolucionário, mas é, no mínimo, diferente — e isso já é um mérito considerável dentro do cenário indie.
Se você curte ação frenética, trilha sonora pesada e aquela vibe meio “filme de ação dos anos 80 com toques de bizarrice sci-fi”, há boas chances de se divertir aqui. ChainStaff é um jogo competente, criativo dentro do seu escopo e que entrega uma experiência satisfatória para quem curte esse tipo de proposta.
ChainStaff já está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada), Xbox Series e Nintendo Switch.
