Análise Arkade: Mario Kart World já é incrível, mas ainda tem muito chão para percorrer

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Mario Kart World chegou carregando um fardo e tanto: primeiro, por ser o único grande exclusivo que acompanha o Nintendo Switch 2. Segundo, por precisar dar continuidade a uma das franquias mais queridas e de maior sucesso da Nintendo — lembre-se que Mario Kart 8 Deluxe vendeu mais de 76 milhões de cópias no Switch. Como será que ele se sai nessa missão? Vamos descobrir!

O famigerado mundo aberto

Como já antecipei no meu preview sobre o Nintendo Switch 2 e o jogo em si, a grande novidade de Mario Kart World, tal qual seu título sugere, é o mundo aberto, que até existe para ser explorado… mas é um tanto vazio e carece de propósito. No modo exploração livre, o jogador pode explorar o mundo aberto sozinho, sem a presença de amigos online e sem a possibilidade de iniciar corridas diretamente nos circuitos espalhados pelo mapa.

A exploração livre — que fica até meio escondida no menu principal — no momento se resume a encontrar botões P que ativam missões pontuais (tipo colete x moedas ou corra contra o relógio) e caçar alguns colecionáveis, como as moedas da Princesa Peach. São mais de 300 botões P espalhados pelo mapa, ou seja: há muito o que fazer — mas tudo se resume a missõezinhas curtas e rápidas.

A ausência de um modo campanha, de algo que tirasse real proveito desse mapa, deixa a sensação de que o “World” do título não se justifica. E, a gente sabe que dá para fazer: Crash Team Racing entregava até batalhas contra chefes em seu Adventure Mode lá em 1999.

Em pleno 2025, o mundo aberto de Mario Kart World carecia de mais sustança e profundidade — especialmente se você esperava algo dinâmico e conectado com as corridas em si, como já experimentamos em Burnout Paradise, Forza Horizon e diversos outros jogos.

Um elo de ligação entre pistas

Há um mérito inegável do mundo aberto, porém: pela primeira vez, quase todos os circuitos do Grand Prix estão de fato inseridos em um mapa. Durante a exploração livre, é possível encontrar as pistas do jogo e até mesmo passear por elas — de forma solitária, sem a opção de iniciar uma corrida no ato, como num Burnout Paradise da vida. A funcionalidade é limitada, mas serve como uma ferramenta de reconhecimento de cada traçado, ideal para quem quiser praticar, estudar atalhos ou dominar melhor as curvas.

O que realmente funciona dentro dessa proposta é a nova dinâmica entre as etapas do Grand Prix: agora, ao invés de simplesmente pular de uma corrida para outra, você dirige pelas estradas do mundo aberto até chegar ao próximo circuito. Esses trechos não são apenas caminhos genéricos: eles integram o próprio mapa, com trânsito, ambientação e elementos que reforçam a sensação de continuidade. É um toque de imersão que, embora não resolva as carências do mundo aberto, torna a progressão do Grand Prix mais orgânica e variada.

Outra boa surpresa que se beneficia dessa estrutura contínua do mundo aberto é o novo modo Eliminatória — que não chega a ser uma novidade dentro do gênero de corrida, mas que aparece pela primeira vez na franquia Mario Kart, e funciona muito bem.

As corridas acontecem em um trajeto único e extenso, dividido em seis partes, que, em alguns casos, cruza o mapa todo (tipo a imagem acima). A cada checkpoint, os quatro últimos colocados são eliminados da disputa. Isso cria um senso constante de urgência e competição, tornando cada prova incrivelmente intensa e emocionante.

É uma novidade que só funciona porque houve um cuidado em criar essa malha rodoviária de um jeito que faz sentido, e se mostra uma sacada brilhante para aproveitar esta estrutura. Ainda que não resolva a falta de propósito do mundo aberto em si, é um ótimo exemplo de como essa ideia pode ser bem aplicada dentro da fórmula Mario Kart.

Fora isso, temos o retorno de modos de jogo clássicos, como o modo Batalha, onde a ideia é estourar os balões dos adversários, e o modo Time Trial, que é de corrida contra o relógio. Tudo isso funciona em modo single player, multiplayer local (até 4 jogadores no mesmo console) e online.

Gameplay familiar, caótico e acelerado

Na essência, Mario Kart World mantém a fórmula que consagrou a franquia: trata-se do mesmo gameplay simples e acessível que todo mundo conhece — mas que, ao mesmo tempo, oferece uma profundidade surpreendente para quem quer jogar com seriedade.

A curva de entrada é amigável, ideal para quem está conhecendo a série agora, mas existe um nível de refinamento mecânico que recompensa os jogadores mais experientes. Dominar curvas, usar itens com precisão, aproveitar atalhos no momento certo… tudo isso continua presente e mais importante do que nunca.

Entre as principais novidades, o jogo adiciona novas possibilidades de movimentação que lembram algo saído de um jogo de skate. Agora é possível deslizar em meios-fios, cabos e corrimãos, ganhando um boost de velocidade no processo. Também é possível realizar pulos carregados que permitem literalmente andar pelas paredes (por alguns segundos).

São mecânicas que não reinventam a experiência de Mario Kart, mas que adicionam novas camadas e possibilidades. E o mais impressionante é ver como a comunidade já abraçou essas novidades: poucos dias após o lançamento, já era possível encontrar no modo online jogadores executando manobras insanas e dominando essas novas técnicas com uma habilidade absurda.

Outro destaque importante está no aumento no número de corredores por pista. Agora, são 24 participantes em cada corrida, o que torna tudo muito mais caóticono melhor sentido possível. Com mais karts na pista, o volume de cascos, bombas, bumerangues e cascas de bananas sendo disparados é muito maior, bem como as ultrapassagens improváveis na reta final. Tudo isso exige reflexos rápidos e muita resiliência após ser bombardeado e cair de 1º para 18º em questão de segundos.

Também há novos itens, como o Mega Cogumelo que deixa seu corredor gigante por alguns segundos, podendo passar por cima dos adversários sem dó. Um novo tipo de casco, dourado, não mira em ninguém específico, mas deixa uma trilha de moedas (e pode detonar quem der bobeira na frente dele. As sacolinhas de comida, por sua vez, podem tanto fornecer um novo visual para o personagem como oferecer um boost de velocidade.

Para dar conta de tantos pilotos, itens e karts, as pistas de Mario Kart World são bem mais largas e espaçosas, garantindo que o fluxo da corrida continue funcional mesmo em meio ao caos. O resultado de tudo isso é um ritmo de competição ainda mais acelerado, imprevisível e, claro, divertido.

Audiovisual

Visualmente, Mario Kart World é um verdadeiro deleite. Trata-se de um salto técnico nítido em relação a Mario Kart 8 — um jogo que ainda faz bonito, mas já completou mais de uma década de estrada (ele saiu originalmente para Wii U, lembra?).

Olha esse céu, que incrível

A nova iteração chega com gráficos mais refinados, cores vibrantes — que tiram proveito da tela HDR do Switch 2 — e aquela direção de arte cheia de personalidade que é marca registrada da Nintendo. Tudo aqui parece feito com extremo zelo e cuidado; das animações de vitória às transformações dos karts, passando por cenários riquíssimos em detalhes que são de cair o queixo.

O novo formato em mundo aberto também permite que o jogo abrace uma estética um pouco mais “pé no chão”, com regiões que simulam ambientes naturais, estradas e cidades. Mas isso não significa faltou criatividade no level design: a pista do Castelo do Bowser, por exemplo, é imponente e cheia de pirotecnias, enquanto a famosa Rainbow Road chega mais longa, psicodélica e desafiadora do que nunca.

A Rainbow Road está mais psicodélica do que nunca

No departamento sonoro, o jogo é simplesmente impecável. A trilha sonora é expansiva, com centenas de faixas que incluem tanto reorquestrações caprichadas de temas clássicos quanto composições inéditas que abraçam diferentes estilos musicais — todas executadas com um primor técnico e artístico digno de nota.

Vale ressaltar que Mario Kart World chega 100% localizado em português brasileiro… mas como esse é um jogo sem diálogos ou muitas falas, a localização acaba focada em questão de menus e tutoriais, mesmo. Desde já, ansiedade lá em cima pelo vindouro Donkey Kong Bananza, que realmente vai trazer dublagens em PT-BR!

Elenco “duvidoso”

Voltando a falar do visual: o design de personagens é incrível, quase todos são carismáticos e muito bem animados. Porém, acho que o jogo escorrega na escolha do elenco — mas admito que isso pode ser birra minha.

O que acontece é que a tela de seleção de pilotos tenta passar uma falsa impressão de variedade ao listar como personagens separados diferentes skins de um mesmo corredor. Tipo, você não escolhe o Mario e depois seleciona o traje: cada versão do bigodudo — tradicional, piloto, aviador, de férias e por aí vai — ocupa um espaço individual na seleção. Isso torna a interface um tanto enganosa, pois a variedade é, de certa forma, ilusória.

Para piorar (a minha birra), boa parte dos novos personagens adicionados ao elenco são NPCs genéricos, como a vaquinha que todo mundo amou, um golfinho e até um caranguejo. Embora simpáticos, esses pilotos não têm o mesmo carisma de personagens icônicos da Nintendo.

Nada contra esses coadjuvantes, mas é difícil não ficar com a sensação de potencial desperdiçado: em vez de investir em figuras anônimas, a Nintendo poderia ter transformado o elenco em algo digno de um Super Smash Kart e trazer Samus, Kirby, Link, Fox McCloud e tantos outras figuras emblemáticas de seu invejável panteão de personagens. Até o próximo jogo de corrida do Sonic vai ter personagens mais variados e interessantes!

Conclusão

Mario Kart World é, sem dúvida, um jogo incrível. As corridas continuam deliciosas, o gameplay é polido ao extremo e a base da experiência entrega exatamente o que se espera de um novo Mario Kart. Mas também é inegável que esse lançamento tem um certo gosto de “produto em andamento”.

Tal qual Mario Kart 8, temos aqui um produto de “cauda longa”, que vai amadurecer com o tempo, recebendo novos conteúdos, pistas, eventos e melhorias ao longo de toda a vida útil do Switch 2. Por enquanto, porém, o que temos é uma experiência muito sólida em gameplay, mas que carecia de mais recheio para ser considerada completa.

Isso pesa ainda mais quando lembramos que o jogo chegou ao mercado custando salgados R$ 500, um preço mais alto do que qualquer outro jogo atual (e mais completo). A dúvida que fica é: quantos dos conteúdos que certamente virão — novas pistas, personagens, talvez até recursos para o mundo aberto — serão gratuitos, para justificar o valor cobrado?

Há potencial de sobra aqui, pois a estrutura já está pronta, e é de extrema qualidade. Se a Nintendo tiver a visão (e a boa vontade) de expandir esse mundo com atualizações relevantes — seria pedir muito uma campanha single player que justifique o mundo aberto — o jogo pode vir a se tornar tão indispensável no Switch 2 quanto Mario Kart 8 Deluxe foi no Switch.

No momento, no entanto, ele ainda não é. Então, não tenha pressa, pois o Mario Kart World do futuro com certeza será um produto muito mais robusto, completo e convidativo para justificar os R$ 500 cobrados — afinal, exclusivos da Nintendo dificilmente abaixam de preço.

Mario Kart World está disponível exclusivamente para Nintendo Switch 2.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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