Hoje, completa-se uma semana desde o início da guerra no Golfo, na qual Estados Unidos e Israel buscam a estabilidade da região sob suas próprias condições.
Isso implica a eliminação do atual regime em Teerã e de seus grupos aliados, considerados o principal fator de risco político e estratégico.
Essa percepção é compartilhada, com diferentes graus de ênfase, pelas monarquias lideradas pela Arábia Saudita e por outros países da região que apoiam tacitamente Washington.
Enquanto escrevemos estas linhas, a guerra continua e os mercados permanecem inquietos. O poder aéreo, balístico e naval do Irã já não possui a mesma força.
No entanto, sua capacidade de causar danos está em “puxar a toalha da mesa”, o que pode se traduzir no bloqueio do Estreito de Ormuz e na interrupção do fornecimento global de hidrocarbonetos, desencadeando uma crise econômica mundial; ou em ataques com drones contra terceiros para envolvê-los no conflito.
O objetivo seria prolongar o confronto o máximo possível, esperando que a impopularidade da guerra no Ocidente e o choque sentido pelos xiitas — cerca de 190 milhões que perderam seu líder espiritual — produzam sentimentos de revanche e luto.
Embora grande parte das capacidades aéreas e navais do Irã tenha sido destruída ou afundada, um desembarque militar não é viável.
Dessa forma, os Estados Unidos avaliam duas alternativas principais. Por um lado, incentivar a insurgência curda no noroeste do país, reunindo suas quatro facções; a facção do Baluchistão, no sudeste; a dos árabes do Khuzistão, no sudoeste; e a dos azeris, no norte.
Por outro lado, buscar uma solução política moderada dentro do próprio regime. Para Washington, as lições do Vietnã, Afeganistão, Líbia, Iraque e Síria ainda são recentes, e o país não toleraria perdas militares próprias — ainda mais depois de Donald Trump ter se apresentado ao eleitorado como defensor da paz.
Os países da região também não podem permitir que se instale um vazio de poder no Irã. Assim, o dilema enfrentado hoje pelos Estados Unidos e seus aliados é mais político e econômico do que militar.
Supondo que a guerra termine dentro de cinco a seis semanas e que se alcance um acordo político em Teerã — seja uma federação, uma teocracia controlada ou uma ditadura militar — surge a pergunta: o que vem depois?
No médio prazo, seria lógico imaginar a retomada das negociações para reviver os Acordos de Abraão, estratégia apoiada por Washington que busca estabelecer relações diplomáticas entre Israel e diversos países árabes.
Essa arquitetura só seria possível com o envolvimento inicial da Arábia Saudita e da Síria, seguido por Iraque, Kuwait e Líbano.
Caso isso se concretize, os Estados Unidos poderiam redesenhar sua relação com Israel e o mundo árabe, evitando que a superioridade militar israelense se transforme em fator de instabilidade.
Posteriormente, Washington poderia concentrar sua atenção em prioridades estratégicas na Ásia, deixando que a questão da Ucrânia permaneça sob responsabilidade europeia.
No longo prazo, surge outra questão: que leitura a China, principal rival estratégico dos Estados Unidos, pode fazer dessa guerra?
Para Pequim, é evidente que um conflito prolongado no Golfo desvia a atenção americana de seus interesses na Ásia.
Ainda assim, uma guerra excessivamente longa ou ampliada também não seria conveniente para os chineses.
A China já demonstrava certo desencanto com o Irã. O país havia depositado grande confiança na parceria estratégica firmada em 2021, que previa investimentos de cerca de US$ 400 bilhões em setores estratégicos — projetos que não chegaram a se concretizar.
Pequim também incentivou a retomada das relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita e apoiou a integração desses países à Organização de Cooperação de Xangai e ao BRICS.
No entanto, os aiatolás ultrapassaram limites considerados aceitáveis pela liderança chinesa, que passou a preparar uma redução da dependência dos hidrocarbonetos iranianos.
Com a visita de Trump à China marcada para ocorrer entre 31 de março e 2 de abril, novos sinais dessa mudança de postura podem surgir.
Durante anos, Pequim se beneficiou de descontos no petróleo bruto iraniano — cerca de 1,4 milhão de barris por dia — pagos fora do sistema SWIFT e em renminbi, o que obrigava Teerã a adquirir produtos chineses.
No entanto, no início de 2025, já antecipando a possibilidade de conflito, a China acumulou grandes estoques de petróleo, suficientes para cobrir de quatro a cinco meses de consumo.
Após a guerra, esses preços preferenciais devem desaparecer, as importações de petróleo iraniano serão mais monitoradas pelos Estados Unidos e a China terá de absorver custos econômicos adicionais decorrentes do conflito, como pressão sobre a balança de pagamentos e desaceleração do consumo interno.
Pequim também diversificou suas fontes de energia, ampliando a compra de hidrocarbonetos da Rússia, de países africanos e de nações latino-americanas.
Além disso, acelera a substituição de combustíveis fósseis por energia renovável e nuclear. Atualmente, a taxa de eletrificação do país representa entre 32% e 34% de seu consumo energético.
A meta é que, até 2060, os combustíveis fósseis representem no máximo 5% de suas necessidades energéticas totais.
Paralelamente, a China tem acelerado projetos de rotas comerciais alternativas para seus principais mercados consumidores.
Entre eles estão rotas pelo Ártico, corredores terrestres pela Ásia Central e o Corredor Econômico China–Paquistão, que permitirá contornar o Sudeste Asiático utilizando o porto paquistanês de Gwadar — atualmente em risco devido à guerra no Afeganistão.
Trata-se de uma rota de aproximadamente 3 mil quilômetros que ligaria diretamente Xinjiang, no interior da China, ao Mar Arábico.
Em resumo, o desmantelamento da ameaça política e nuclear do Irã — que antes atendia a interesses globais e estratégicos de longo prazo da China — altera o equilíbrio regional.
O antigo parceiro terá capacidade mais limitada de influência no Oriente Médio, embora seja irrealista imaginar sua completa exclusão do jogo de poder regional. O término do conflito tende a favorecer os Estados Unidos.
Para nós, os efeitos mais imediatos da guerra estão relacionados ao aumento do preço internacional do petróleo. Isso impacta inflação, taxas de juros, política monetária, exportações, custos de seguros e fluxos comerciais.
Para uma economia pressionada por desequilíbrios fiscais herdados de administrações anteriores, essas repercussões representam uma notícia negativa. Quanto menos tempo durar o conflito, melhor.
Além disso, o novo enfraquecimento do direito internacional é considerado um sinal preocupante. Nas palavras da ex-ministra das Relações Exteriores da Espanha, Ana Palacio, essa ordem jurídica representa “nossa principal linha de defesa contra a arbitrariedade”.
Ainda assim, é preciso reconhecer que o ataque preventivo dos Estados Unidos e de Israel foi favorecido pela incapacidade da diplomacia internacional de promover mudanças exigidas pelas disputas de poder regionais. As regras da política prevaleceram.
Por outro lado, a redução de uma ameaça nuclear é vista como um alívio. A possível desarticulação de estruturas do Hezbollah em regiões como Iquique ou na tríplice fronteira entre Argentina, Paraguai e Brasil pode facilitar o trabalho de serviços de inteligência na luta contra redes do crime organizado que atuam na região. Também é observado o enfraquecimento da influência do Hamas.
No longo prazo, o conflito tende a reduzir a presença iraniana na América Latina. O apoio de Teerã à infraestrutura petrolífera da Venezuela, ao equipamento militar da Bolívia e sua aliança com Cuba para contornar sanções internacionais podem se tornar episódios do passado.
Plataformas como a HispanTV e centros culturais financiados pelo Irã devem perder recursos, enfraquecendo a narrativa antiocidental que promovem.
Ainda assim, isso não impede que críticas construtivas ao poder hegemônico continuem sendo feitas em defesa de valores, identidade cultural e princípios políticos.
*Este texto foi veiculado originalmente no El Libero
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Diplomata, mestre em relações internacionais pelo Instituto Ortega y Gasset, também foi embaixador do Chile no Brasil.
