DANIELA ARCANJO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS)
O vazamento de um email interno do Pentágono nesta sexta-feira (24) reacenceu o debate sobre a soberania das ilhas Malvinas, um território ultramarino britânico que a Argentina reivindica para si -talvez o único consenso dos argentinos na atual polarização política que divide o país.
Segundo a agência de notícias Reuters, um funcionário americano afirmou que a mensagem do Departamento de Defesa menciona possíveis punições a membros da Otan que, na visão dos Estados Unidos, não apoiaram as operações de Washington na guerra contra o Irã.
Entram na lista a Espanha, governada pelo socialista Pedro Sánchez, e o Reino Unido, governado pelo trabalhista Keir Starmer. Segundo a agência, o primeiro país poderia ser punido com a suspensão de sua participação na aliança militar ocidental; o segundo, com a revisão dos EUA sobre a soberania das Falklands, como o local é chamado em inglês.
Questionado pela Reuters sobre o email, o secretário de Imprensa do Pentágono, Kingsley Wilson, repetiu o que o presidente Donald Trump vem afirmando nos últimos meses. “Apesar de tudo o que os EUA fizeram por nossos aliados da Otan, eles não estiveram presentes para nós”, afirmou.
“O Departamento de Guerra garantirá que o presidente tenha opções viáveis para assegurar que nossos aliados deixem de ser apenas figuras decorativas e passem a fazer a sua parte. Não temos mais comentários a fazer sobre quaisquer deliberações internas a esse respeito”, completou.
Enquanto Sánchez disse literalmente “não à guerra” iniciada por EUA e Israel, Starmer deu um apoio hesitante a Washington. Em março, após se recusar inicialmente a ter qualquer papel nos ataques contra o país persa, o premiê permitiu que os EUA usassem bases militares de seu país para um “propósito defensivo específico e limitado” em meio à retaliação iraniana, mas reafirmou que não participaria “de ações ofensivas no Irã”.
Foi o suficiente para Trump passar a atacar Starmer, chamando-o de covarde e descrevendo os porta-aviões britânicos como “brinquedos”. “O Reino Unido tem sido muito, muito pouco cooperativo”, disse o republicano na ocasião.
Atualmente, o site do Departamento de Estado afirma que as ilhas Malvinas são uma “questão bilateral que precisa ser resolvida diretamente entre os governos da Argentina e do Reino Unido”.
“Encorajamos ambas as partes a resolverem suas divergências por meio do diálogo nos canais diplomáticos normais. Reconhecemos a administração de fato do Reino Unido sobre as ilhas, mas não tomamos posição em relação à soberania”, completa.
É exatamente esse reconhecimento da administração que pode estar em jogo, segundo a Reuters. Se a relação de Trump com Starmer está difícil, a com Javier Milei está em um de seus melhores momentos -antes das eleições legislativas de outubro, das quais o ultraliberal saiu vitorioso, os EUA enviaram um pacote de resgate financeiro bilionário para ajudar o aliado.
“Estamos fazendo tudo o que é humanamente possível para que as Malvinas argentinas, as ilhas, todo o território, retornem às mãos da Argentina”, disse Milei em entrevista a uma rádio publicada em sua conta na rede social X nesta sexta. “Estamos progredindo como nunca antes.”
Seu chanceler, Pablo Quirno, também se manifestou na mesma plataforma, pedindo a retomada das negociações com Londres.
“A ocupação de 1833 foi um ato de força contrário ao direito internacional vigente à época, que violou nossa integridade territorial e instaurou uma situação colonial que persiste”, disse, sobre a ação que expulsou os argentinos do território no século 19. “Por história, por lei e por convicção: as ilhas Malvinas são argentinas”, completou, ecoando a frase que aparece até mesmo nas janelas de ônibus de Buenos Aires.
