Felipe Mendes
São Paulo
Expoente da direita no empresariado brasileiro, Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, encampou uma campanha pela aprovação da escala 4×3 na quarta-feira (27). A provocação, em tom de deboche, é uma resposta à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) defendida pelo governo Lula que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 horas para 40 horas.
A Câmara dos Deputados aprovou o texto, que agora será apreciado pelo Senado. Crítico ferrenho do projeto, Hang disse à Folha que preferiria a aprovação da escala 4×3, com quatro dias de trabalho e três de descanso, porque “se for para quebrar o Brasil, que seja rápido”.
“O Congresso deveria aprovar a 4×3 e implantá-la já em junho para que a gente visse quanto tempo o Brasil iria aguentar. Coisa ruim tem que ser o mais rápido possível, não adianta você ficar sofrendo por muito tempo”, afirma. “Acho que para acertar este país é só com uma desgraça. Então, que a desgraça seja instalada o mais rápido possível.”
Com sede administrativa em Brusque (SC), a Havan se tornou uma das maiores redes de departamentos no Brasil, ganhando os holofotes a partir do apoio de Hang a Jair Bolsonaro antes das eleições presidenciais de 2018.
Hoje, são 191 lojas e mais de 25 mil funcionários —no próximo sábado (30), será inaugurada a 192ª unidade, em Taquara (RS). Em 2025, a empresa registrou R$ 13,7 bilhões em receita líquida, com lucro líquido de R$ 3,5 bilhões.
Hang afirma que a mudança no regime pautada no Congresso irá aumentar os custos da empresa entre 15% e 20% e projeta uma “quebradeira” de pequenas e médias varejistas pelo país. Para o empresário, a medida vai se refletir em mais inflação para o consumidor final.
“Do couro sai a correia. Esses custos que vão ser colocados para a indústria, comércio e serviços serão repassados nos preços”, afirma. “Essa diferença de 15% a 20% vai para os preços. E a inflação vai comer o salário do cara, que vai ter que arranjar um segundo emprego para sobreviver.”
Na esteira da aprovação da nova PEC, o empresário diz que as leis no Brasil “são feitas por pessoas que não gostam de trabalhar”. Ele reclama, por exemplo, do artigo 386 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que prevê que mulheres tenham direito a ao menos uma folga em um domingo a cada 15 dias. A medida visa garantir o descanso às mulheres, visto que muitas assumem uma jornada dupla por atividades da casa e apoio à educação dos filhos.
Esse direito estava previsto na CLT desde 1943, mas precisou ser ratificado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2023 após descumprimento da regra, especialmente com a implementação da reforma trabalhista de 2017.
“A Havan tem três turnos [de trabalho]. Há um tempo, inventaram que mulheres não podem trabalhar dois domingos em seguida. O que tu consegues com isso? Tu vais ter que contratar mais homens. […] Cada lei que não tem lógica, quem sofre é a própria pessoa para que foi feita a lei”, afirma. “Eu nunca vi, nesse país, tanto idiota para fazer leis burras.”
Hang não está sozinho nessa crítica, mas o tema não é consenso no setor. A FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) vai na direção contrária. A entidade afirmou nesta semana à Folha que a dificuldade não envolve uma questão de gênero, mas sim da complexidade de acondicionar as escalas, já que há várias vigentes em negociações coletivas, como 1×1, 2×1 e 2×2, referentes aos domingos de folga.
Ricardo Patah, presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que tem cerca de 600 mil representados, diz que é impossível não contratar mulheres hoje para vagas no comércio, mesmo com o fim da escala 6×1.
“Tem certas funções que, por mais que possam ser executadas por homens, ficaram basicamente com a mulher, como caixa de supermercados, atendente e vendedora de loja de roupas femininas. Há consumidoras que não vão querer comprar com homens. São argumentos pequenos”, diz, sobre as declarações.
A Havan deve encerrar o ano com mais de 200 lojas e um faturamento bruto de cerca de R$ 22 bilhões –em 2025, a receita bruta foi R$ 18,5 bilhões. Hang tem uma viagem marcada para o Paraguai, onde deverá se encontrar com o presidente Santiago Peña, em junho. A visita do empresário ao país tem o intuito de explorar oportunidades para a internacionalização da rede.
A chamada Lei de Maquila tem atraído empresas brasileiras, sobretudo da indústria têxtil, com promessa de isenções fiscais e menores encargos trabalhistas. Lupo e Riachuelo são algumas das fabricantes que se instalaram no país vizinho recentemente.
“O presidente Peña me ligou, o ministro dele me ligou, e acertei de visitar o Paraguai entre os dias 29 de junho e 1º de julho”, contou Hang. “Eu não posso ser o último empresário a apagar a luz. Meus fornecedores já estão lá, meus amigos já estão morando lá”, disse. “Vou visitar. Quero ver porque o Paraguai atraiu mais de 250 empresas brasileiras.”
APOIO POLÍTICO
Um dos principais apoiadores de Jair Bolsonaro nas últimas eleições, Hang diz ter amizade com alguns presidenciáveis, como Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), mas descarta, por ora, entrar de cabeça em uma nova campanha eleitoral para algum deles.
Em 2024, o empresário foi multado em ação movida pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) ao pagamento de R$ 85 milhões sob a acusação de ter coagido funcionários a votarem em Bolsonaro na disputa contra Fernando Haddad (PT).
“Eu, agora com 63 anos, não tenho mais a disposição que eu tive quando eu tinha 55 anos para fazer tudo aquilo que fiz pelo [Jair] Bolsonaro. Não tenho mais o ímpeto de entrar de cabeça numa campanha eleitoral como eu já fiz, até porque eu estou muito dedicado às nossas lojas e à minha responsabilidade com os nossos 25 mil colaboradores”, diz. “Como eu não sou político, não vou me envolver em política, eu vou ser mais cometido neste ano.”
