Análise Arkade: Dracamar, um jogo de plataforma 3D que tem carisma demais e desafio de menos

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Existe algo imediatamente familiar em Dracamar. Desde os primeiros minutos, fica claro que o jogo quer resgatar aquela sensação clássica dos platformers 3D da era Playstation 2: mundos coloridos, coleta de itens, fases relativamente abertas, personagens simpáticos e uma vibe leve, pensada para ser acessível.

Mas será que ele consegue agradar como os jogos de PS2 faziam? Vamos descobrir em nossa análise!

Uma aventura simples, mas simpática

A história de Dracamar é bastante direta. Em um arquipélago inspirado por paisagens mediterrâneas e pela cultura catalã, vamos acompanhar um grupo de jovens tentando impedir os planos do vilão King Crad, um dragão maligno que ameaça dominar o mundo e corromper criaturas mágicas conhecidas como Okis.

E… é meio que isso. Não espere aqui uma narrativa profunda ou cheia de reviravoltas. O jogo aposta em um tom leve e familiar, abordando temas como amizade, união e a vida em harmonia com a natureza. É aquele tipo de jogo em que o importante não é exatamente o roteiro, mas sim a jornada.

Essa simplicidade funciona dentro da proposta. O jogo sabe que sua narrativa existe mais como fio condutor da aventura do que como protagonista da experiência. Temos cutscenes simples e diálogos rápidos aqui e ali, mas tudo acontece de maneira bastante descomplicada.

O diferencial está justamente na proposta cultural diferenciada: a influência mediterrânea e catalã dá um gostinho diferente aos cenários, aos personagens e até à atmosfera geral do jogo. É uma ambientação diferente do padrão “fantasia genérica” ou “jogo com animal antropomorfizado” que costumamos ver em jogos de plataforma 3D.

Plataforma 3D

Em termos de gameplay, Dracamar entrega um jogo de plataforma 3D bastante tradicional, mas simples até demais. Corremos, pulamos, enfrentamos inimigos, coletamos itens e exploramos ilhas em busca dos chamados Moki-balls — recursos utilizados para reconstruir pontes e desbloquear novas áreas.

A movimentação é fluida e funcional. O controle é responsivo, os saltos são precisos e o jogo raramente gera frustração mecânica. É agradável explorar os cenários, especialmente nos momentos em que o level design aposta em verticalidade ou em desafios mais inspirados de travessia.

Temos três personagens jogáveis — Caliu, Foc e Espurna –, mas a mudança não muda muita coisa, mecanicamente falando. As diferenças entre os três são muito pequenas — o gameplay muda pouco independentemente de quem você escolhe controlar. Isso meio que anula o interesse em querer mudar de personagem.

O combate segue uma linha extremamente básica. Os inimigos existem mais como obstáculos pontuais do que como ameaças reais. Você derrota praticamente tudo sem grande esforço e segue em frente. O mesmo pode ser dito dos puzzles: nada está ali para realmente te fazer pensar, são apenas etapas adicionais que bloqueiam nosso caminho.

Um jogo confortável (até demais)

Este talvez seja o maior problema de Dracamar: ele raramente desafia ou instiga o jogador. As mecânicas apresentadas nas primeiras horas continuam praticamente iguais até o fim do jogo. Não existem grandes surpresas, mudanças estruturais ou novas camadas de gameplay que se apresentem para transformar a experiência.

Dracamar é um jogo sem atrito. Ele não quer pressionar o jogador, nem exigir demais dele. O ritmo é sempre tranquilo, quase contemplativo. O jogo quer ser relaxante, acessível e confortável. E não há nada de errado com isso: cozy games podem ser muito bons. O lance é que aqui eu esperava encontrar mais um jogo de plataforma 3D e menos um cozy game.

Sendo justo, o jogo transmite uma sensação acolhedora que combina bastante com sua direção artística “bonitinha”. Porém, ao evitar qualquer tipo de risco ou atrito, ele se torna previsível, sem graça. A falta de evolução mecânica ou de desafios mais criativos cobra seu preço ao longo da campanha. O level design raramente surpreende, de modo que a gente acaba passando pelo jogo meio que no piloto automático.

É aquele tipo de jogo em que você dificilmente vai passar raiva ou ficar travado… mas também nunca vai ficar genuinamente empolgado, nem criar narrativas emergentes memoráveis. Tudo funciona, mas poucas coisas realmente empolgam.

Um audiovisual extremamente carismático

Se existe um departamento em que Dracamar realmente ganha pontos, é no audiovisual. O jogo é muito carismático dentro da sua proposta. As ilhas inspiradas no Mediterrâneo têm personalidade, usam cores vibrantes e criam uma atmosfera bastante agradável. É um mundo que passa sensação de aconchego e aventura ao mesmo tempo.

Os personagens também seguem uma linha bastante caricata e simpática, quase como mascotes clássicos dos anos 2000. Tudo tem uma estética muito “videogame”, e as inspirações nos tempos do PS2 sem dúvida merecem ser apreciadas.

A trilha sonora acompanha bem essa proposta. As músicas têm uma pegada leve, mas tem características rítmicas que reforçam a identidade mediterrânea do jogo. Não há músicas realmente memoráveis, mas elas embalam bem a jogatina.

Rodando no Xbox Series, a performance foi bastante sólida e estável, sem bugs graves ou travamentos. Vale destacar ainda que o jogo conta com menus e legendas em português brasileiro, algo sempre importante para ampliar sua acessibilidade.

Conclusão

Dracamar é um jogo que sabe exatamente o que quer ser, mas fica muito acomodado em uma zona de conforto — para ele e para o jogador. Ele entrega uma experiência simpática, acessível e visualmente charmosa, mas peca pela simplicidade. O que sobra em carisma falta em evolução e ousadia. Falta vontade do jogo realmente desafiar ou surpreender o jogador.

Ainda assim, existe mérito aqui. A ambientação diferenciada é interessante, e o departamento audiovisual consegue ser cativante. O gameplay, apesar de simples, funciona bem. Não é um jogo para quem busca algo na linha de Crash Bandicoot ou Sly Cooper, mas talvez ele seja uma boa pedida como “primeiro jogo de plataforma 3D da criança”, justamente pela falta de atrito.

Dracamar está disponível para PC, PS5, PS4, Xbox One, Xbox Series e Nintendo Switch. O game possui menus e legendas em PT-BR.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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