Psilocibina e ketamina: os tratamentos que estão mudando a psiquiatria

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O psiquiatra Wilson Gonzaga explica por que substâncias antes vistas com desconfiança hoje despontam como esperança para casos graves de depressão resistente

FreepikRetrato de jovem com baixa auto-estima sentado perto da janela em casa

A depressão resistente é hoje um dos maiores desafios da psiquiatria moderna. Milhões de pessoas passam anos experimentando diferentes antidepressivos sem alcançar melhora significativa. Em muitos casos, os sintomas persistem apesar de múltiplas tentativas terapêuticas, comprometendo trabalho, relacionamentos e o próprio sentido da vida.

Nesse cenário, substâncias como a psilocibina e a ketamina vêm despertando crescente interesse da comunidade científica por apresentarem resultados rápidos e promissores em pacientes que não responderam aos tratamentos convencionais.

Resultados rápidos chamam atenção da ciência

Os antidepressivos tradicionais costumam levar semanas para produzir efeito clínico. Já a ketamina pode reduzir sintomas depressivos e ideação suicida em poucas horas ou dias, algo particularmente relevante em situações graves.

A psilocibina, substância presente em determinados cogumelos, também vem demonstrando importante potencial terapêutico. Estudos conduzidos em universidades como Johns Hopkins University e Imperial College London sugerem benefícios significativos em casos de depressão resistente, ansiedade associada a doenças graves e sofrimento existencial.

Além da rapidez de ação, essas substâncias parecem atuar estimulando mecanismos ligados à neuroplasticidade – capacidade do cérebro de criar novas conexões neurais e reorganizar padrões emocionais rígidos. Em outras palavras, podem ajudar o paciente a sair de circuitos repetitivos de sofrimento, desesperança e ruminação mental.

Outro aspecto que chama atenção é que os efeitos terapêuticos não parecem depender apenas da química cerebral, mas também da experiência subjetiva vivida durante o tratamento. Muitos pacientes relatam experiências de profunda reconexão emocional, revisão de traumas e mudança de perspectiva sobre si mesmos e sobre a vida.

O que já é realidade – e o que ainda está em estudo

A ketamina já é utilizada clinicamente no Brasil, especialmente em casos de depressão resistente, sob protocolos médicos específicos. Sua versão derivada, a Escetamina, possui aprovação regulatória para determinados quadros depressivos.

Já a psilocibina permanece em fase experimental na maior parte do mundo, embora os estudos avancem rapidamente. Os resultados mais promissores aparecem em pesquisas envolvendo depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade relacionada ao câncer e dependência química.

Apesar do entusiasmo crescente, é fundamental evitar simplificações. Nem ketamina nem psilocibina devem ser vistas como “cura milagrosa” ou utilizadas sem acompanhamento especializado. Essas substâncias podem produzir efeitos psicológicos intensos e não são indicadas para todos os pacientes, exigindo avaliação médica rigorosa e ambiente terapêutico adequado.

Uma nova forma de compreender o sofrimento mental

A psiquiatria contemporânea começa a reconhecer que saúde mental não envolve apenas suprimir sintomas, mas também restaurar significado, conexão e flexibilidade emocional. Nesse contexto, psilocibina e ketamina talvez representem não apenas novas medicações, mas o início de uma transformação mais profunda na forma de compreender o sofrimento psíquico.

Dr. Wilson Gonzaga – CRM-SP 39269 | RQE 2557
Psiquiatra





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