Segundo o professor de Relações Internacionais, Sidney Leite, a ação de ‘busca pela paz’ destes países vai além da superfície

Com a ascenção de conflitos armados ao redor do mundo, países como o Paquistão, Catar e Turquia se tornaram peças centrais na mediação de guerras. No dia 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel iniciaram uma série de ataques contra o Irã com o objetivo de inibir maiores evoluções no programa nuclear do país.
Desde então, o regime iraniano já perdeu o seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, parte de sua família e mais de 5 mil pessoas que, segundo dados compilados pela agência de notícias Reuters no dia 2 de abril, morreram nos confrontos.
O Paquistão, país da Ásia que faz fronteira com o sul do Irã, tem sido o centro diplomático mediador deste conflito. Segundo o professor e doutor em Relações Internacionais Sidney Ferreira Leite, o Paquistão é uma “ponte política essencial para crises envolvendo atores asiáticos e insurgências de longo prazo” e que a mediação que promove para o cessar-fogo entre Irã e os EUA vai além da geopolítica tradidicional.
Sidney afirma que reduzir as conversas mediadoras ao “xadrez das grandes potências” é um erro, já que há três “camadas invisíveis” que guiam o sucesso dos acordos e o bom posicionamento destes países que servem como “apaziguadores”:
- identidade;
- segurança interna;
- prestígio.
Islamabad, capital do Paquistão, foi o mediador do conflito entre Estados Unidos e Irã. No sábado (23), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizou uma ligação no Salão Oval da Casa Branca com líderes do Oriente Médio para discutir um memorando de entendimento voltado à paz com a República Islâmica do Irã. Segundo o republicano, “os detalhes finais do entendimento seguem em discussão e devem ser anunciados em breve”, destaca. Entre os principais pontos do acordo, segundo Trump, está a abertura do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de petróleo. Irã e Estados Unidos vivem um cessar-fogo desde o dia 7 de abril.
O pesquisador e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Vitelio Brustolin exlicou que “para o Paquistão a guerra não é um evento distante. Ele tem uma fronteira sensível, compartilha quase 1000 km de fronteira com o Irã, então qualquer desestabilização gera fluxo de refugiados e risco de segurança na região do Baluquistão”, disse o pesquisador.
Brustolin diz ainda que existe também uma questão de dependência energética. “O Paquistão importa quase todo seu petróleo e gás de países do Golfo. Em uma guerra que fecha o Estreito de Ormuz, como essa, acaba paralizando grande parte da economia Paquistanesa de forma quase instantânea”.
O professor Sidney, por sua vez, destaca outros países que se comportam como mediadores de conflitos. O Catar e a Turquia, por exemplo, segundo Sidney, usam desta diplomacia de paz para “consolidar liderança no mundo islâmico e projetar um ‘soft power’ (capacidade de um país influenciar comportamentos e decisões de outras nações) que compensa suas limitações territoriais”.
Além disso, o professor destaca a necessidade em estabilizar a região de cada território mediador como uma “autodefesa” para evitar crises de refugiados e choques energéticos (como o aumento no preço de combustíveis) que bateriam diretamente em suas portas.
A pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) e também professora da disciplina, Isabelle C. Somma de Castro, afirma que os três países têm grande interesse no fim da guerra.
Em relação ao Paquistão, Isabelle diz que é muito claro o interesse atual em normalizar o mais rápido possível o abastecimento de petróleo do país. “Ele é extremamente dependente do combustível fornecido pelos países do Golfo Pérsico. Recentemente, os paquistaneses formalizaram um acordo na área de segurança com a Arábia Saudita e, por isso, sua importância diplomática aumentou”, afirmou a pesquisadora. “Os sauditas são uma força econômica e política na região e concedem legitimidade aos esforços do governo paquistanês”, completou.
Catar e Turquia
Diferente do Paquistão, o Sidney diz que o Catar “transformou a mediação em ‘produto de exportação’” para manter o diálogo aberto com grupos que o ocidente ignora, como o Hamas.
Com a guerra desencadeada após ataques do grupo islâmico Hamas contra Israel no dia 7 de outubro de 2023, o Catar participa ativamente da mediação do conflito que, apesar de já ter sido determinado seu cessar-fogo, ainda gera consequências e alegações de descumprimento da trégua.
O Catar também tem se manifestado em relação ao conflito EUA x Irã buscando o cessar-fogo. No dia 15 de abril, o emir catari, Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, conversou por telefone com o presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a guerra e pediu a redução das tensões, informou o gabinete do emir.
Emir do Catar, Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani
Os dois líderes discutiram as consequências do aumento do conflito no Oriente Médio nos mercados de energia e nas cadeias de suprimentos globais. “Sua Alteza também enfatizou a importância de intensificar os esforços internacionais para evitar uma escalada ainda maior na região“, diz o comunicado do Catar.
A professora Isabelle afirma que o Catar já operava como mediador de conflitos há pelo menos duas décadas e acumulou experiência no assunto. “O país tem interesse em ser um ator influente em negociações de paz a fim de elevar sua importância no cenário global”, explicou.
Já o pesquisador Vitelio explicou que a mobilização do Catar e da Turquia é movida por uma mistura de sobrevivência econômica, identidade religiosa e até segurança de fronteiras.
“Existe a unidade sunita e xiita, porque embora Paquistão e Turquia sejam de maioria sunita e o Irã, xiita, a cooperação visa evitar que o sectarismo religioso piore a guerra, focando na fraternindade islâmica para estabilizar a região”, pontua.
Em relação a Turquia, o professor Sidney a caracteriza como um país “mediador de peso pesado” que atua na fronteira entre Otan e Rússia e mistura pragmatismo com ambição regional.
Também no dia 15 de abril, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a capital do país, Ancara, estava trabalhando para estender o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã para garantir a continuidade das negociações, acrescentando ainda que o país está “esperançoso” em relação às conversas.
Para a pesquisadora Isabelle, a Turquia, além do interesse em resolver o conflito que envolve um vizinho, existe a ambição de se tornar um ator imprescindível nas decisões que envolvem a região.
“Ancara tem relações diplomáticas estáveis com todos os envolvidos e por esse motivo também se apresenta como um mediador confiável. E, obviamente, a necessidade de resolver a questão econômica – normalizar o abastecimento de petróleo e gás vindo da região – faz com que seu envolvimento seja oportuno”, finaliza.
A Turquia, que é vizinha do Irã, tem mantido proximidade diplomática com os EUA, o Irã e o Paquistão, que é o principal mediador do conflito. O país tem pedido repetidas vezes o fim da guerra.
Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan
Escalada até a posição de mediadores
O professor Sidney afirmou, porém, que a confiança entre rivais nestes países mediadores de conflitos não foi conquistada por sorte. “Foi por investimento em capital de reputação. Eles aplicam a regra de ouro da diplomacia moderna: manter canais abertos com todos, sem alinhamentos totais.”. Dessa forma, ao evitar inimigos claros e investir em ajuda humanitária, esses países “tornam-se ‘facilitadores indispensáveis’ e oferecem o que as grandes potências muitas vezes não podem: neutralidade funcional e acesso direto”, explica Sidney.
Além disso, o interesse em ser uma potência mediadora vai além da busca pela paz. Sidney garante que a movimentação não é um “ato de altruísmo” e sim uma “ferramenta de poder”.
“Ao sentar-se à mesa, o país garante proteção contra o isolamento internacional, atrai investimentos e ganha relevância na disputa global entre EUA e China. Em um sistema internacional fragmentado, ser o ‘fio condutor’ entre rivais é o seguro de vida mais valioso que um Estado pode ter”, finaliza o professor.
Vitelio diz que as mediações não seguem um manual fixo mas elas costumam começar com sinais sutis e depois evoluem para uma estrutura burocrática mais rigorosa. “O processo é uma mistura de diplomacia de bastidores e protocolos internacionais”, explica.
O pesquisador complementa ao dizer que há uma questão de solidariedade islâmica e status. “Existe uma carga simbólica de identidade na mediação. A questão da liderança no mundo muçulmano porque Paquistão, Turquia e Catar buscam se posicionar como líderes naturais do mundo islãmico, então mediar um conflito entre uma potência ocidental e uma nação muçulmana, como o Irã, reforça essa imagem de protetores da paz regional”, explica.
O professor da UFF usa o Catar como exemplo de como funcionam as práticas do início da mediação. “O país envia um emissário privado, ou faz uma ligação informal para sentir a temperatura e o mediador identifica um ponto onde dois inimigos concordam – como troca de prisioneiros ou ajuda humanitária, para abrir o diálogo”.
Além disso, Vitelio explica que há a questão do convite ou da oferta. “Ou as partes em conflito pedem ajuda a um vizinho considerado ‘neutro’ ou o mediador se oferece publicamente para evitar que a guerra chegue a sua própria fronteira”.
Já para Isabelle, essas tratativas são feitas em alto nível, envolvendo as lideranças de cada um dos países. “Como não há um procedimento oficial, as conversações iniciais são realizadas nos bastidores e, com a concordância dos envolvidos, eles se apresentam como mediadores”, pontua a professora.
Ela explica ainda que cada país tem seu interesse específico e são esses interesses que fazem com que se envolvam ou não, mas que o Catar tem sua particularidade.”No caso específico do Catar é diferente, pois o país quer ser conhecido como um ator especializado na resolução de conflitos, mesmo que essa participação não confira muito alarde aos seus esforços”, diz a professora.
Por fim, a professora relembra ainda outros acordos de paz, como o fechado pela diplomacia do Catar: o acordo de Doha, em 2021, que selou a paz entre americanos e o Talibã. Aconteceu também a tentativa de acordo nuclear com o Irã, capitaneado pelo Brasil em 2010, e como a participação da Turquia. “O acordo chegou a ser finalizado, mas o governo de Barack Obama recusou-se a aceitar a articulação promovida por ambos os países”, explicou.
